Todo avião comercial, por mais moderno que seja, só continua voando com segurança porque existe uma indústria inteira dedicada a desmontá-lo, inspecioná-lo e remontá-lo em intervalos regulares. Esse trabalho é chamado de MRO — sigla em inglês para Maintenance, Repair and Overhaul (Manutenção, Reparo e Revisão Geral) — e é um dos setores mais lucrativos e menos visíveis da aviação. Ele movimenta mais de US$ 136 bilhões por ano no mundo, sustenta dezenas de milhares de empregos qualificados e, no Brasil, já é disputado por gigantes como GOL Aerotech, Azul TecOps, LATAM MRO e Embraer. Entender como esse mercado funciona ajuda a explicar por que voar continua sendo, estatisticamente, uma das formas mais seguras de se locomover.
Imagem: técnico de manutenção realizando serviço em motor turbofan, trabalho típico da indústria de MRO. Foto de J-C G, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).
Um mercado bilionário em ciclo de expansão
Segundo a pesquisa anual da consultoria Oliver Wyman, especializada em aviação, o mercado global de MRO superou US$ 136 bilhões em 2025 e a projeção é de que chegue perto de US$ 140 bilhões em 2026. A consultoria descreve o momento como um ‘super ciclo’ de manutenção: frotas mais antigas exigindo reparos com mais frequência, somadas a problemas inesperados de durabilidade em motores de nova geração. A expectativa é que os gastos globais com manutenção aeronáutica se aproximem de US$ 193 bilhões até o fim da década.
Esse crescimento não é tranquilo. O próprio levantamento da Oliver Wyman, que ouviu mais de 150 profissionais do setor, aponta escassez de mão de obra, falta de peças e instabilidade geopolítica como os principais fatores de disrupção. Nos Estados Unidos, projeta-se um déficit de 17.800 mecânicos certificados só em 2025, número que pode chegar a 22.000 em 2027. Como consequência, os salários da mão de obra de manutenção vêm subindo entre 5,5% e 6% ao ano — quase o dobro do ritmo observado antes da pandemia.
Manutenção de linha x manutenção pesada: qual a diferença
Nem toda manutenção é igual. A manutenção de linha é a mais frequente: acontece logo após o pouso, com verificações rápidas de pneus, possíveis impactos de pássaros e itens que precisam estar prontos para a próxima decolagem — em algumas aeronaves, é até feita pela própria tripulação. Depois vem a manutenção diária ou de hangar, realizada a cada 24 ou 48 horas, com trocas de pneus e freios e verificação de fluidos, aproveitando o período em que o avião fica parado no pátio durante a noite.
A manutenção pesada é outra história. Segundo a ABEAR (Associação Brasileira das Empresas Aéreas), o Check C — que antigamente era quase uma revisão anual, mas hoje pode ocorrer a cada dois anos ou mais — envolve desmontagens, modificações e pintura, e pode manter o avião em solo de cinco dias a um mês. Já o Check D, o mais complexo de todos, também chamado de heavy check ou overhaul, exige entre 28 e 40 dias parado: a aeronave é praticamente desmontada por completo para recuperação de estruturas, interiores e pintura, e acontece a cada quatro a seis anos. É esse tipo de manutenção pesada que movimenta os grandes centros de MRO — e é justamente ali que está o dinheiro do setor.
Por que as companhias aéreas terceirizam a manutenção pesada
Manter uma estrutura própria capaz de fazer um Check D — hangares enormes, ferramental específico, equipes altamente especializadas e certificações internacionais — é um investimento pesado demais para a maioria das companhias aéreas administrar sozinha, especialmente quando a operação central da empresa é vender passagens e voar rotas com lucro. Por isso, é comum que companhias aéreas concentrem sua manutenção de linha internamente, mas enviem os checks pesados para provedores especializados de MRO, sejam eles unidades de outras companhias (como a LATAM MRO, que atende também aeronaves de terceiros) ou empresas dedicadas ao setor.
A terceirização reduz a necessidade de imobilizar capital em ativos fixos e permite acesso a escala e especialização que seriam caras de replicar internamente. É por isso que existem polos regionais de MRO concentrando demanda de várias companhias — na América Latina, esse papel vem sendo cada vez mais ocupado pelo Brasil.
O Brasil na rota da manutenção aeronáutica mundial
O país tem hoje alguns dos maiores centros de MRO da América Latina. A LATAM MRO, em São Carlos (SP), ocupa 95 mil m² com nove hangares e 22 oficinas, é homologada por autoridades como EASA, FAA e DGAC, responde por 60% da manutenção programada de toda a frota do Grupo LATAM e emprega mais de 2.000 pessoas — a companhia investiu cerca de US$ 4 bilhões no Brasil entre 2023 e 2026, incluindo um novo hangar inaugurado em 2025 que sozinho gerou 300 empregos.
A Azul TecOps, criada em 2023, opera no maior hangar de manutenção da América Latina, com 35 mil m² em Viracopos (Campinas), com capacidade para até oito aeronaves de fuselagem estreita simultaneamente e cerca de 679 funcionários — já presta serviço para companhias de fora do Brasil, com aprovação de autoridades europeias. A GOL Aerotech, em Confins (MG), já recebeu mais de R$ 130 milhões em investimentos, emprega mais de 760 pessoas entre engenheiros e técnicos e entrega 98% de pontualidade em manutenções pesadas — índice acima da média do setor. A Embraer, por sua vez, mantém uma rede de mais de 80 centros de serviço próprios e autorizados no mundo, com centros no Brasil em Sorocaba e Gavião Peixoto, empregando mais de 4.000 pessoas para dar suporte a mais de 4.580 aeronaves em operação.
Nem toda história é de expansão: a TAP Manutenção e Engenharia Brasil, que já foi a maior empresa de manutenção da América Latina e operava no Galeão, no Rio de Janeiro, encerrou suas atividades no país após acumular perdas de quase € 600 milhões em 13 anos, deixando 385 empregos para trás — o hangar foi assumido depois pela United Airlines para sua própria operação de manutenção no Brasil. É um lembrete de que MRO é um negócio de margens apertadas e escala, onde nem todo player sobrevive.
A escassez de mecânicos como oportunidade
Segundo projeções da Boeing, a aviação comercial deve criar 2,37 milhões de novas vagas no mundo até 2044, das quais 710 mil serão para equipes técnicas de manutenção. Na América Latina, a demanda estimada é de 42 mil novos técnicos nas próximas décadas. O Brasil, hoje, conta com cerca de 15 mil mecânicos de manutenção aeronáutica licenciados pela ANAC (apenas 835 mulheres) e 30.833 licenças ativas no total, já que um mesmo profissional pode acumular mais de uma habilitação — 12.473 em célula, 12.401 em grupo motopropulsor e 5.959 em aviônicos.
A formação, porém, é rigorosa: em 2025, 3.982 alunos concluíram cursos de mecânico de manutenção aeronáutica no país, mas apenas 17% foram aprovados de primeira no exame da ANAC. Esse rigor, que poderia parecer um obstáculo, tem sido tratado pelo setor como um diferencial competitivo do Brasil diante da escassez global de mão de obra qualificada — e explica por que empresas como a LATAM abriram recentemente centenas de vagas em manutenção aeronáutica no país e criaram escolas próprias de formação de mecânicos.
Perguntas frequentes
O que significa MRO na aviação?
MRO é a sigla para Maintenance, Repair and Overhaul (Manutenção, Reparo e Revisão Geral). É o nome dado ao setor responsável por manter aeronaves em condição de voo segura, desde checagens rápidas após o pouso até revisões completas que desmontam o avião por inteiro.
Qual a diferença entre manutenção de linha e manutenção pesada?
A manutenção de linha é feita com alta frequência, geralmente após o pouso, com verificações rápidas para liberar o avião para o próximo voo. A manutenção pesada corresponde aos checks C e D: envolve desmontagem parcial ou total da aeronave, dura de vários dias a mais de um mês e ocorre a cada dois a seis anos, dependendo do tipo de check.
Por que companhias aéreas terceirizam a manutenção pesada?
Porque manter hangares, ferramental especializado e equipes certificadas para checks pesados exige um investimento fixo muito alto. Terceirizar para centros especializados de MRO permite à companhia aérea focar no seu negócio principal — vender passagens e operar rotas — enquanto acessa escala e expertise que seriam caras de manter internamente.
Fontes
- Oliver Wyman Global Fleet and MRO Market Forecast 2026-2036 (via Consulting.us)
- ABEAR – Como é feita e qual é a periodicidade de manutenção de um avião?
Para entender melhor a economia por trás da operação de uma aeronave, veja também nosso texto sobre quanto custa manter um avião e descubra por que a maioria das companhias aéreas prefere alugar seus aviões em vez de comprá-los.



