Quando você embarca em um voo, é fácil presumir que aquele avião pertence à companhia aérea estampada na fuselagem. Na maioria das vezes, isso não é verdade. Boa parte da frota mundial de aviação comercial não é propriedade das empresas que operam os voos — é alugada de empresas de leasing aeronáutico, um modelo de negócio que hoje sustenta a maior parte da aviação comercial global.
Imagem: Aeronaves estacionadas no pátio do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo — muitas delas operadas sob contratos de leasing aeronáutico. Foto de Valter Campanato/Agência Brasil, via Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR).
Quanto da frota mundial é alugada
Segundo dados da IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo), o leasing passou de cerca de 10% da frota mundial nos anos 1970 para 58% no final de 2023, com estabilização recente em torno de 60%. Em outras palavras, mais aviões comerciais no mundo hoje são alugados do que efetivamente comprados e mantidos no balanço patrimonial das companhias aéreas.
Essa proporção varia bastante por região. Europa e América Latina são as regiões com maior percentual de aviões arrendados — 63% e 60%, respectivamente — enquanto América do Norte e Oriente Médio ficam em 41% e 38%. Aeronaves de corredor único e jatos regionais respondem por 58% da frota global em leasing, seguidos por turboélices (45%) e aeronaves de dois corredores, como widebodies de longo curso (43%).
Por que alugar em vez de comprar
Um avião comercial novo custa dezenas de milhões de dólares, e mantê-lo operacional por décadas exige capital que muitas companhias aéreas — especialmente as menores ou as que operam com margens apertadas — simplesmente não têm disponível de uma vez. O leasing resolve esse problema ao transferir a propriedade da aeronave para uma empresa especializada em financiamento aeronáutico, permitindo que a companhia aérea pague um valor mensal para operar o avião sem imobilizar todo o capital necessário para comprá-lo à vista ou financiá-lo integralmente.
Isso também dá às companhias aéreas mais flexibilidade para ajustar o tamanho da frota conforme a demanda: em vez de ficar presa a um avião comprado por 20 ou 25 anos, uma companhia pode devolver aeronaves alugadas ao fim do contrato e renovar a frota com modelos mais eficientes, sem o processo mais lento e caro de vender um avião próprio.
Quem são os donos dos aviões que você voa
As maiores empresas de leasing aeronáutico do mundo — como AerCap, Avolon e SMBC Aviation Capital — muitas vezes não são conhecidas do público porque não operam voos: elas compram aeronaves diretamente da Boeing e da Airbus e as alugam para dezenas de companhias aéreas ao redor do mundo. Em 2023, as empresas de leasing facilitaram 61% de todas as aquisições de aeronaves comerciais — ou seja, a maioria dos aviões novos saindo de fábrica hoje vai primeiro para uma empresa de leasing, e só depois para a companhia aérea que efetivamente vai operá-lo.
Dry lease e wet lease: duas formas diferentes de alugar
Existem basicamente dois tipos de contrato de leasing aeronáutico. No dry lease, a companhia aérea aluga só a aeronave, e é responsável por tripulação, manutenção e seguro — o formato mais comum para contratos de longo prazo. Já no wet lease, o contrato inclui a aeronave junto com tripulação, manutenção e seguro (o pacote conhecido pela sigla ACMI), geralmente usado para suprir picos sazonais de demanda ou cobrir uma aeronave própria em manutenção por curtos períodos.
Os dois modelos principais de leasing usados pelas companhias aéreas
Existem basicamente dois formatos de contrato de leasing aeronáutico: o “dry lease”, em que a companhia aérea aluga apenas a aeronave e é responsável por tripulação, manutenção e seguro, e o “wet lease”, em que o contrato já inclui tripulação, manutenção e seguro fornecidos pela empresa proprietária — geralmente usado para suprir demanda sazonal ou substituir aeronaves temporariamente indisponíveis. Esse modelo de negócio permite que companhias aéreas ajustem o tamanho da frota com mais flexibilidade e menos capital imobilizado do que se precisassem comprar cada aeronave diretamente, o que explica por que grandes empresas de leasing, como AerCap e Air Lease Corporation, hoje possuem frotas de milhares de aeronaves alugadas para companhias aéreas ao redor do mundo.
Perguntas frequentes
Um avião alugado é menos seguro que um avião próprio?
Não. Independentemente de quem é o proprietário legal da aeronave, todas as normas de manutenção, certificação e segurança são definidas pelas autoridades de aviação civil (como ANAC, FAA ou EASA) e se aplicam da mesma forma, seja o avião próprio ou alugado.
Por que a América Latina tem tanto avião alugado?
Entre outros fatores, o custo de capital mais alto para financiar a compra direta de aeronaves em países emergentes torna o leasing uma alternativa financeiramente mais viável para companhias aéreas da região, o que explica o percentual de 60% de frota arrendada citado pela IATA.
As companhias aéreas de baixo custo também alugam aviões?
Sim, e com frequência ainda maior que companhias tradicionais, já que o leasing permite crescer a frota rapidamente conforme a demanda aumenta, sem o compromisso financeiro de longo prazo de uma compra direta.
Por que as companhias aéreas preferem alugar em vez de comprar seus aviões?
Alugar libera capital que poderia ficar imobilizado por décadas na compra de uma aeronave, permite renovar a frota com mais agilidade acompanhando avanços tecnológicos, e reduz o risco financeiro em caso de queda na demanda, já que contratos de leasing costumam ter prazos mais flexíveis do que o financiamento de uma compra direta.
Fontes
- IATA — More Aircraft Are Leased Than Owned By Airlines Globally
- Airway — Leasing aeronáutico: afinal quem são os donos dos aviões que você voa?
O leasing é só uma peça da equação financeira por trás de cada voo. Veja também quanto custa um avião comercial e por que o Airbus A380 é tão caro.



