Antes de qualquer avião comercial decolar, existe uma assinatura que o comandante não pode dispensar: a do Despachante Operacional de Voo (DOV), o profissional licenciado pela ANAC responsável por reunir dados de meteorologia, peso, combustível, rota e NOTAMs (avisos aos aeronautas) e decidir, junto com o piloto em comando, se aquele voo específico está de fato liberado para partir.
Imagem: Sala de operações com telas de monitoramento — ambiente que ilustra o tipo de central usada para coordenar informações antes da liberação de um voo. Via Wikimedia Commons (Domínio Público).
O que o DOV realmente faz antes de cada voo
Regulado pelo RBAC 65 (Requisitos Brasileiros da Aviação Civil), o Despachante Operacional de Voo é a pessoa autorizada a exercer o despacho de aeronaves de empresas aéreas certificadas — na prática, quem monta e libera o plano de voo junto com o comandante, considerando fatores como previsão do tempo nas rotas alternativas, peso e balanceamento da aeronave, quantidade de combustível necessária e restrições operacionais de cada aeroporto envolvido. É uma responsabilidade compartilhada por lei: tanto o piloto em comando quanto o DOV assinam, cada um com sua parcela de responsabilidade, a liberação daquele voo específico.
Os requisitos da ANAC para virar DOV
Segundo o Governo Federal, para obter a autorização é preciso ter no mínimo 21 anos, ensino médio completo e conseguir ler, falar e entender o idioma português. A partir daí, o RBAC 65 Subparte C exige a conclusão de um curso teórico de DOV aprovado pela ANAC, seguida da comprovação de 40 despachos reais supervisionados, assinados por um instrutor responsável — ou seja, o candidato precisa efetivamente participar do despacho de 40 voos de verdade antes de poder prestar os exames. Depois disso, vem um exame teórico e um exame prático (check-ride) aplicados pela própria ANAC, com o processo de habilitação submetido pela companhia aérea através do sistema SISHAB. Diferente de outras licenças aeronáuticas, a licença de DOV não tem prazo de validade — é permanente —, embora a habilitação específica para operar cada modelo (ou grupo de modelos) de aeronave precise ser obtida separadamente.
Quanto ganha um Despachante Operacional de Voo no Brasil
Segundo dados do site salario.com.br referentes a setembro de 2026, o salário médio do Despachante Operacional de Voo no Brasil é de R$ 3.535,04 por mês — 2,2% acima do valor registrado em 2025 —, com piso salarial de R$ 2.736,38 e teto de R$ 5.285,12. A remuneração mediana fica em R$ 2.375, e o valor médio por hora trabalhada é de R$ 18,13. O perfil típico do profissional é um homem de 29 anos, com ensino médio completo, trabalhando 36 horas semanais, majoritariamente em empresas de taxi aéreo concentradas no estado de São Paulo.
Um mercado de trabalho pequeno — e mais seletivo do que parece
Os próprios dados do setor mostram um mercado de nicho: no período de 12 meses entre agosto de 2025 e julho de 2026, houve apenas 306 movimentações de contratação e desligamento na categoria em todo o país, com 178 admissões contra 128 demissões — um saldo positivo de apenas 50 vagas líquidas no período. Mais revelador ainda: comparando o início e o fim desse mesmo intervalo, o volume de contratações caiu 77,78%, um sinal de que a demanda por novos despachantes está mais restrita agora do que estava um ano antes. Ainda assim, o índice de rotatividade da categoria é considerado alto, de 41,8% — o que sugere que, uma vez formado, o profissional tende a circular entre empregadores dentro do próprio setor.
Esses pontos ajudam a contextualizar o tema tratado neste artigo sob uma perspectiva mais ampla.
Como as Alianças Aéreas Funcionam
Alianças como as que reúnem companhias aéreas de diferentes continentes permitem acordos de codeshare, em que um voo operado por uma companhia é vendido também com o código de outra, ampliando a rede de destinos oferecida a cada passageiro sem que a própria companhia precise operar aquela rota. Para o passageiro, isso normalmente significa acúmulo e uso de milhas entre companhias parceiras e conexões mais integradas entre voos de diferentes operadoras. Para as companhias, representa uma forma de competir em escala global sem o investimento necessário para operar diretamente em todos os mercados.
Como as Companhias Aéreas Precificam as Passagens
As tarifas aéreas são calculadas por sistemas de gerenciamento de receita (revenue management) que ajustam preços continuamente de acordo com a demanda prevista, o tempo restante até o voo e quantos assentos daquela classe tarifária ainda estão disponíveis. O objetivo não é simplesmente vender todos os assentos, mas maximizar a receita total do voo, o que explica por que passageiros no mesmo avião frequentemente pagaram valores bem diferentes pela mesma viagem. Esse modelo, herdado da indústria hoteleira e adaptado para a aviação nas últimas décadas, torna a comparação direta de preços entre companhias mais complexa do que parece à primeira vista.
A Carreira de Piloto: Da Escola de Aviação à Cabine
O caminho até o cockpit de uma aeronave comercial passa por etapas regulamentadas: a licença de piloto privado (PPL), depois a licença de piloto comercial (CPL) e, para operar aeronaves maiores, a licença de piloto de linha aérea (ATPL), cada uma exigindo horas mínimas de voo e exames teóricos específicos. Após a formação inicial, é comum que pilotos precisem acumular horas de experiência antes de serem contratados por companhias maiores, e cada nova aeronave que o piloto passa a operar exige um treinamento de habilitação de tipo específico para aquele modelo. Essa trajetória, que pode levar vários anos, explica por que a formação de novos comandantes é vista pelas companhias como um investimento de longo prazo.
Carreiras em Terra: Despachantes, Controladores e Técnicos de Manutenção
Embora pilotos e comissários recebam a maior parte da atenção pública, a aviação comercial depende de uma rede muito mais ampla de profissionais: despachantes operacionais que elaboram planos de voo, controladores de tráfego aéreo responsáveis pela separação segura entre aeronaves, técnicos de manutenção certificados que assinam a liberação de cada aeronave antes do voo, e equipes de operações aeroportuárias que coordenam o embarque e o despacho de bagagens. Cada uma dessas carreiras exige formação técnica específica e, em muitos casos, certificações renovadas periodicamente, formando um mercado de trabalho bem mais amplo do que normalmente se imagina ao pensar em “trabalhar com aviação”.
Quanto Custa Manter um Avião Comercial
Os custos de operar uma aeronave comercial vão muito além do combustível, embora ele costume ser o maior item variável: incluem arrendamento ou financiamento da aeronave, manutenção programada, seguros, taxas aeroportuárias e de navegação aérea, além da tripulação. Por isso, muitas companhias optam por arrendamento operacional em vez de comprar aeronaves diretamente, o que reduz a necessidade de capital imobilizado e facilita ajustes de frota conforme a demanda do mercado muda. Esse equilíbrio entre custos fixos e variáveis é um dos motivos pelos quais o setor aéreo é historicamente sensível a oscilações cambiais e no preço do petróleo.
O Impacto do Preço do Combustível nas Tarifas Aéreas
O combustível de aviação costuma representar uma das maiores parcelas do custo operacional de uma companhia aérea, e por isso oscilações no preço do petróleo se refletem relativamente rápido nas tarifas cobradas dos passageiros. Para reduzir essa exposição, muitas companhias utilizam instrumentos financeiros de proteção, conhecidos como hedge de combustível, que fixam parte do custo futuro a um preço previamente acordado. Mesmo com essas proteções, períodos de alta prolongada no preço do petróleo historicamente forçam reajustes tarifários ou mudanças na malha de rotas operadas.
Os Desafios Econômicos do Setor Aéreo no Brasil
O mercado aéreo brasileiro enfrenta particularidades que o diferenciam de outros países, como a tributação sobre combustível de aviação, que varia conforme o estado e impacta diretamente o custo operacional das companhias que mais voam em determinadas rotas. Além disso, grande parte dos custos do setor, incluindo arrendamento de aeronaves e peças de manutenção, é cotada em dólar, enquanto a receita das companhias é predominantemente em reais, criando exposição cambial relevante. Some-se a isso a necessidade constante de investimento em infraestrutura aeroportuária para acompanhar o crescimento da demanda, e fica mais claro por que o setor aéreo brasileiro opera historicamente com margens mais estreitas do que em mercados mais maduros.
Perguntas Frequentes Adicionais
Como funciona o programa de milhas?
Companhias aéreas vendem milhas para parceiros, como bancos e varejistas, e usam o acúmulo e a resgate de milhas pelos passageiros como ferramenta de fidelização, funcionando como uma fonte relevante de receita adicional além da venda direta de passagens.
Pilotos de carreira ganham bem no Brasil?
A remuneração varia muito conforme a posição, a companhia e a aeronave operada, sendo tipicamente mais baixa no início da carreira e crescendo significativamente com a senioridade e a passagem para aeronaves de maior porte.
Perguntas frequentes
Um Despachante Operacional de Voo precisa ser piloto?
Não. São licenças e formações completamente separadas — o DOV não precisa ter formação ou horas de voo como piloto, embora precise entender profundamente de meteorologia, performance de aeronaves, regulamentação e planejamento de rota para exercer a função com segurança.
O DOV trabalha dentro do avião ou em terra?
Em terra. O despacho é feito antes da decolagem, tipicamente em uma central de operações da companhia aérea, com comunicação constante com o piloto em comando durante a fase de planejamento e, muitas vezes, também durante o próprio voo em casos de mudança de rota ou condições meteorológicas adversas.
Por que o mercado de DOV é considerado pequeno no Brasil?
Porque cada companhia aérea certificada precisa manter um quadro relativamente compacto e estável de despachantes qualificados para o volume de operações que realiza — diferente de cargos como comissário de bordo, cujo volume de contratação acompanha diretamente o crescimento da frota e das rotas.
Fontes
- Gov.br — Obter autorização para trabalhar como Despachante Operacional de Voo
- Salario.com.br — Despachante Operacional de Voo (CBO 342510)
O DOV é uma das várias carreiras licenciadas que sustentam cada voo comercial no Brasil — para comparar, veja também como funciona a carreira e o salário de um Controlador de Tráfego Aéreo e como é o caminho para se tornar Comissário de Bordo no Brasil.



