V1, VR e V2: as Velocidades Que Decidem se a Decolagem Continua ou é Abortada

Avião comercial decolando logo após atingir as velocidades V1, VR e V2

Nos primeiros segundos de qualquer decolagem comercial, a tripulação já sabe exatamente o que fazer se um motor falhar — porque a decisão foi calculada matematicamente antes mesmo de a aeronave começar a acelerar na pista. Essa decisão gira em torno de três velocidades, conhecidas pelos códigos V1, VR e V2, que juntas definem o momento exato de abortar ou continuar a decolagem, e quando o avião finalmente deixa o chão.

Imagem: Boeing 737 da Ethiopian Airlines decolando. Foto de LLBG Spotter, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).

V1: a velocidade de decisão

V1 é a velocidade limite até a qual a tripulação ainda pode abortar a decolagem com segurança, freando dentro da distância de pista restante. Uma vez ultrapassada essa velocidade, a regra é clara: a decolagem continua, mesmo que um motor falhe — porque, nesse ponto, tentar parar o avião seria mais arriscado do que decolar com um motor a menos e resolver o problema já no ar. V1 não é um valor fixo: é recalculado para cada voo, considerando o peso da aeronave, o comprimento da pista disponível, a altitude do aeroporto, a temperatura do ar e as condições da superfície.

VR: a velocidade de rotação

Pouco depois de V1 vem a VR, o momento em que o piloto puxa o manche (ou o side-stick) e inicia a rotação — o levantamento do nariz da aeronave. Nesse instante, as rodas principais ainda tocam o solo, mas a asa já gera sustentação suficiente para começar a subida. A VR é calculada para garantir que, mesmo com um motor inoperante, a aeronave consiga decolar dentro do espaço de pista restante sem risco de tocar a cauda no chão ou perder sustentação.

V2: a velocidade de segurança de decolagem

V2 é a velocidade mínima que a aeronave precisa manter durante a subida inicial, mesmo em caso de falha de um motor logo após a decolagem. Ela garante uma margem de segurança acima da velocidade de estol e assegura uma taxa de subida mínima regulamentada até que a aeronave alcance uma altura segura — normalmente 35 pés (cerca de 10,7 metros) acima do fim da pista, segundo os critérios de certificação usados também como referência pela ANAC.

Como essas velocidades são calculadas: o “campo balanceado”

O conceito por trás do cálculo dessas três velocidades é o chamado “campo balanceado” (balanced field length): a pista precisa ser longa o suficiente tanto para que a aeronave consiga parar com segurança se abortar em V1, quanto para que consiga decolar com segurança continuando após uma falha de motor na mesma velocidade. Companhias aéreas recalculam essas velocidades antes de cada decolagem, usando o peso real da aeronave naquele voo, a pista específica em uso, a altitude do aeroporto e as condições meteorológicas do momento — nenhum valor é genérico ou fixo por modelo de avião.

Por que a regra “abaixo de V1 aborta, acima decola” é tão rígida

Estatísticas de segurança operacional mostram que abortar uma decolagem em alta velocidade, já muito próximo ou acima de V1, é uma das manobras mais arriscadas da aviação comercial — envolve frenagem máxima, uso de reversores e risco real de sair da pista. Por isso os manuais de operação são categóricos: acima de V1, mesmo diante de uma falha de motor, a tripulação deve prosseguir com a decolagem e lidar com o problema já em voo, onde há mais tempo e controle para agir.

Perguntas frequentes

V1, VR e V2 são iguais em todos os voos do mesmo avião?

Não. Essas velocidades mudam a cada voo, dependendo do peso da aeronave, da pista utilizada, da altitude do aeroporto, da temperatura e das condições do vento — por isso são recalculadas antes de cada decolagem.

O que acontece se o motor falhar exatamente em V1?

A decisão depende do treinamento e dos procedimentos da companhia, mas via de regra, ao atingir V1, a decolagem já deve continuar — abortar exatamente nesse ponto está no limite da distância de pista calculada para parar com segurança.

Existem exceções à regra de continuar a decolagem após V1?

Sim, situações extremas como incêndio evidente, perda de controle da aeronave ou indicação clara de que ela não voará com segurança podem justificar um aborto mesmo acima de V1, mas isso é tratado como exceção rara e treinada especificamente pelas tripulações.

Fontes

Esse cálculo de desempenho depende diretamente da potência entregue pelos motores, explicada em detalhes em como funciona um motor turbofan, e também da resposta dos comandos de voo, tema do nosso texto sobre o sistema hidráulico dos aviões.

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