Enquanto a maioria das pessoas olhava para cima em 12 de agosto de 2026 para acompanhar o eclipse solar total que cruzou o céu da Europa, uma equipe da NASA estava fazendo algo bem mais incomum: voando um avião de pesquisa a 15,2 km de altitude, bem acima das nuvens, para fotografar o Sol de um ângulo que nenhum telescópio no chão conseguiria alcançar. A aeronave usada não é um jato qualquer — é o WB-57F, um veículo de pesquisa de alta altitude do Centro Espacial Johnson, e a missão tinha um objetivo científico bem específico: entender por que a coroa solar é muito mais quente que a própria superfície do Sol.
Imagem: um WB-57F da NASA reabastece em voo sobre Lajes, nos Açores. Foto de Lucas Silva, 65th Air Base Wing Public Affairs, via Wikimedia Commons (domínio público).
Por que perseguir um eclipse de avião
Um eclipse solar total é uma das poucas oportunidades que os cientistas têm para observar diretamente a coroa solar — a atmosfera externa e mais fraca do Sol, que fica obscurecida pelo brilho da superfície na maior parte do tempo. Quando a Lua bloqueia temporariamente essa superfície, a coroa fica visível por poucos minutos. O problema é que, no dia 12 de agosto de 2026, o caminho da totalidade cruzava majoritariamente o Oceano Atlântico Norte, uma região onde nuvens são comuns e não existe absolutamente nenhum telescópio terrestre fixo posicionado. A solução da NASA foi decolar um avião do Campo Ellington, em Houston, e voá-lo até a Islândia, de onde a equipe cruzou o caminho da totalidade em pleno ar.
Por que voar a 15 km de altitude faz diferença
A cerca de 50.000 pés (15,2 km), o WB-57F voa acima da grande maioria das nuvens, da poeira e do vapor de água que atrapalham observações feitas do solo. Essa altitude também permite que os instrumentos científicos captem comprimentos de onda infravermelhos que, na baixa atmosfera terrestre, são amplamente absorvidos antes de chegarem a qualquer equipamento no chão — ou seja, o avião não estava apenas fugindo das nuvens, estava literalmente enxergando faixas do espectro que instrumentos terrestres não conseguem captar de jeito nenhum.
Uma operação cronometrada ao segundo
Antes da missão, as equipes de ciência e voo calcularam com meses de antecedência exatamente onde o avião precisaria estar no momento em que a sombra da Lua cruzasse o Atlântico Norte. Durante o eclipse, o piloto John Gustine posicionou a aeronave ao longo do caminho da totalidade para maximizar o tempo dentro da sombra, enquanto, do banco de trás, o operador de sensores Cary Klemm ajustava foco e tempo de exposição das câmeras em tempo real. “Cada imagem é outro pedaço de dado que poderia revelar algo novo sobre o Sol”, resumiu Klemm sobre a missão.
O que está em jogo cientificamente
A pergunta por trás da missão é um dos maiores mistérios não resolvidos da física solar: por que a coroa do Sol chega a ser muito mais quente que a superfície visível logo abaixo dela. Segundo Amir Caspi, pesquisador principal do estudo no Southwest Research Institute, as capacidades de voo em alta altitude do WB-57F foram “verdadeiramente cruciais” para capturar esses comprimentos de onda em um eclipse cujo trajeto passava majoritariamente sobre o oceano. Como a coroa solar é feita de plasma moldado por campos magnéticos — o mesmo tipo de processo físico que ocorre em outras partes do universo —, entender esse mecanismo ajuda a explicar fenômenos de clima espacial que afetam satélites e comunicações na própria Terra.
Perguntas frequentes
O WB-57F é um avião exclusivo para observar eclipses?
Não — o WB-57F é uma plataforma de pesquisa de alta altitude usada pela NASA para uma variedade de missões científicas, de monitoramento atmosférico a testes de reentrada de cápsulas espaciais. A missão do eclipse solar de agosto de 2026 foi apenas um dos usos possíveis dessa aeronave, adaptada com instrumentos específicos para cada tipo de estudo.
Por que não usar um satélite em vez de um avião?
Satélites conseguem observar o Sol continuamente, mas um eclipse total oferece uma condição única e temporária: a Lua bloqueando fisicamente a superfície solar, revelando a coroa com um contraste que instrumentos espaciais especializados em coronografia tentam replicar artificialmente, com resultados diferentes. Um avião posicionado corretamente durante o eclipse real complementa essas observações com dados que nenhum equipamento em órbita reproduz da mesma forma.
Quanto tempo os cientistas tiveram para coletar dados durante o eclipse?
A totalidade de um eclipse solar dura tipicamente poucos minutos no solo — e, mesmo voando dentro da sombra da Lua para prolongar a janela de observação, a equipe da NASA teve apenas alguns minutos de coleta de dados, o que explica por que cada segundo de posicionamento e sincronização das câmeras era tratado como crítico pela tripulação.
Fontes
- AEROIN — Pilotos da NASA voaram a aeronave WB-57F para buscar uma visão mais nítida da coroa solar
- NASA Science — NASA Shares Views of August Solar Eclipse from Ground, Air, Space
Voar tão alto exige lidar com um ambiente hostil que a aviação comercial também enfrenta todos os dias, só que em menor grau: veja como a pressurização de cabine protege quem está a bordo de um avião comum. E se você quer entender outro instrumento que “enxerga” o que os olhos humanos não veem no céu, conheça o radar meteorológico de bordo, que permite aos pilotos identificar tempestades antes de chegar nelas.



