Interline e BSP: Como Companhias Sem Aliança Despacham Sua Bagagem Até o Destino Final

Passageiro despachando bagagem em totem self-service no Aeroporto de Bergen

Comprar uma passagem com conexão em duas companhias aéreas diferentes, sem aliança nenhuma entre elas, e ainda assim ver sua bagagem aparecer direto no destino final, sem precisar retirá-la e despachá-la de novo no meio do caminho. Isso só é possível graças a um mecanismo discreto, mas essencial, da indústria da aviação: o acordo interline, combinado com o sistema de compensação financeira da IATA conhecido como BSP.

Passageiro despachando bagagem em totem self-service no Aeroporto de Bergen

Imagem: despacho de bagagem em aeroporto — acordos interline são o que permite que uma mala despachada na origem chegue ao destino final mesmo trocando de companhia aérea no meio do caminho. Foto de Wolfmann, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

O Que É um Acordo Interline — e Por Que Não É o Mesmo Que Codeshare

Interlining é um acordo voluntário entre companhias aéreas que permite que o passageiro troque de transportadora dentro de um mesmo itinerário com múltiplos voos. Algumas companhias vão além e garantem reacomodação gratuita caso uma conexão seja perdida por atraso de um dos voos envolvidos.

É fácil confundir interline com codeshare, mas são coisas diferentes. No codeshare, uma companhia aérea coloca seu código de voo em uma aeronave operada por outra empresa — é por isso que às vezes você compra uma passagem de uma companhia e embarca em um avião pintado com as cores de outra. Mas o codeshare, por si só, não resolve o problema de bagagem e emissão de bilhete: tanto a companhia que vende o voo (marketing carrier) quanto a que o opera precisam ter acordos interline válidos com todas as outras transportadoras do itinerário para que a viagem funcione como uma experiência única.

Como Funciona o Dinheiro: o Papel do BSP e da IATA Clearing House

Quando existe um acordo interline, um único bilhete pode cobrir toda a viagem, mesmo que ela envolva companhias diferentes. Sem esse acordo, o passageiro precisaria comprar bilhetes separados, retirar e despachar a bagagem manualmente em cada conexão, e teria muito menos proteção: se o segundo trecho atrasasse por causa do primeiro, a segunda companhia nem saberia do problema e dificilmente faria a reacomodação sem custo.

A companhia que emite o bilhete original, chamada de “plating carrier”, é quem recebe o valor integral da tarifa paga pelo passageiro. Quando a venda é feita por uma agência de viagens, o repasse desse valor para a companhia acontece através de sistemas de compensação: nos Estados Unidos, pelo ARC; no restante do mundo, pelo BSP (Billing and Settlement Plan) da IATA. A companhia que efetivamente operou cada trecho do voo, por sua vez, fatura a companhia emissora do bilhete, normalmente através da IATA Clearing House, o mecanismo central que organiza esses repasses entre centenas de companhias aéreas ao redor do mundo. Os acordos podem ser unilaterais, valendo em uma única direção, ou bilaterais, valendo nos dois sentidos.

Por Que Alianças Aéreas Dependem Tanto Disso

Companhias que fazem parte da Star Alliance, da SkyTeam ou da Oneworld quase sempre mantêm acordos interline entre si, o que é parte do que torna essas alianças úteis para o passageiro: comprar uma única passagem que passa por três ou quatro companhias diferentes dentro da mesma aliança e ainda assim despachar a bagagem apenas uma vez, no aeroporto de origem. Mas o interline não depende de aliança para existir: até companhias concorrentes diretas, sem qualquer vínculo formal além do acordo bilateral, podem assinar esse tipo de contrato quando é vantajoso para ambas.

A Virada de 2007: Quando o Bilhete de Papel Acabou

Até 2007, apenas companhias de grande porte, como United e Lufthansa, mantinham acordos interline baseados em bilhetes eletrônicos. Isso mudou quando a IATA determinou o fim do bilhete de papel até o final daquele ano, uma exigência que forçou companhias menores a adotarem o bilhete eletrônico — e, por consequência, a modernizarem também seus acordos interline. Na década de 2010, empresas como a islandesa Dohop e a Kiwi.com começaram a vender viagens no estilo interline de forma não oficial, remontando trechos de voos separados e empacotando serviços extras para tentar replicar a experiência, numa prática conhecida como “interline virtual”.

Os Limites do Interline Virtual e Quem Fica de Fora

A diferença entre interline oficial e interline virtual é sutil, mas importante: no modelo virtual, o passageiro ainda compra bilhetes separados, precisa retirar e despachar a bagagem novamente entre os voos, e muitas vezes não tem acesso a áreas de trânsito isentas de alfândega. A prática funciona melhor dentro de zonas sem exigência de visto entre si, como Estados Unidos e Canadá, ou o Espaço Schengen na Europa. Companhias de baixo custo que vendem exclusivamente de forma direta ao consumidor, sem distribuição por agências, geralmente não participam de acordos interline tradicionais — uma das razões pelas quais perder uma conexão entre duas companhias low-cost diferentes costuma ser bem mais arriscado para o passageiro.

Perguntas frequentes

Interline e codeshare são a mesma coisa?

Não. Codeshare é a venda de um voo operado por outra companhia sob o código da companhia vendedora. Interline é o acordo que permite trocar de companhia dentro do mesmo itinerário, com bagagem e bilhete unificados. Um codeshare só funciona de ponta a ponta se também existir um acordo interline por trás dele.

O que é o BSP da IATA?

BSP (Billing and Settlement Plan) é o sistema que a IATA usa, fora dos Estados Unidos, para processar o repasse financeiro entre agências de viagens e companhias aéreas quando um bilhete é vendido por terceiros, e entre as próprias companhias quando mais de uma opera trechos do mesmo itinerário.

Companhias aéreas brasileiras fazem interline entre si?

Sim, é comum que companhias aéreas brasileiras mantenham acordos interline bilaterais com transportadoras internacionais mesmo sem pertencer à mesma aliança, especialmente em rotas onde uma complementa a malha da outra.

Fontes

O interline é apenas um dos acordos que moldam como você viaja comprando uma só passagem: veja também como funciona o codeshare entre companhias aéreas. E para entender por que sua bagagem às vezes custa mais do que a própria passagem, confira como funciona a franquia de bagagem.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima