Quando Letícia, moradora de Lucas do Rio Verde (MT), precisou de um medicamento refrigerado e de alto custo que só existia no Rio Grande do Sul, a distância entre os dois pontos era de milhares de quilômetros — e o tempo era o que mais pesava contra ela. A solução não veio de um único avião voando de ponta a ponta, mas de uma combinação de voos comerciais, pilotos voluntários e uma rede de solidariedade coordenada pela ONG ASES Brasil (Apoio Aéreo em Situações Especiais), entre os dias 14 e 15 de setembro de 2026.
Imagem: aeronave leve bimotor de aviação geral, do tipo usado por pilotos voluntários em missões de apoio aéreo. Foto de Acroterion, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Um problema com duas pontas separadas por milhares de quilômetros
A mobilização começou quando Letícia procurou a ASES Brasil por meio do formulário disponível no site da organização, pedindo ajuda para transportar por via aérea um medicamento localizado no Rio Grande do Sul. Ao analisar o caso, a ONG identificou que não bastava mover o remédio: seria preciso também levar a própria paciente, que pretendia inicialmente fazer de ônibus o trajeto entre Lucas do Rio Verde e Cuiabá, até o hospital onde receberia o tratamento — muitas horas de estrada incompatíveis com seu estado de saúde.
Como o remédio chegou a Cuiabá a tempo
O medicamento estava guardado por outra paciente, que havia decidido preservá-lo para uma futura doação e o disponibilizou assim que soube do caso de Letícia. A primeira opção estudada foi usar só aviação geral: um piloto voluntário se ofereceu para buscar o remédio no Rio Grande do Sul e seguir direto para Cuiabá, mas a estimativa era de cerca de oito horas de voo, sem contar escalas para abastecimento. O Aeroclube de Canela também colocou um piloto à disposição, mas ele só poderia voar no dia seguinte. Diante da urgência, a solução final combinou meios: o remédio seguiu por terra até o Aeroporto de Santo Ângelo (RS), embarcou num voo comercial às 16h rumo a São Paulo mantendo a refrigeração necessária, e de lá um voluntário — com a passagem custeada por uma empresa apoiadora — o acompanhou em outro voo comercial até Cuiabá.
A aviação geral entra em cena para levar a paciente
Com o remédio já em Cuiabá, faltava resolver a segunda ponta da missão. Na segunda-feira, 14 de setembro, um piloto voluntário da região usou uma aeronave de pequeno porte para transportar Letícia de Lucas do Rio Verde até Cuiabá, evitando as muitas horas de viagem rodoviária que seu quadro de saúde não permitia. No dia seguinte, 15 de setembro, o mesmo piloto a levou de volta para casa após a realização do tratamento. A pedido dos envolvidos, a identidade do piloto e os dados da aeronave não foram divulgados publicamente.
Como funciona a rede por trás dessas missões
Criada em 2004, a ASES — Apoio Aéreo em Situações Especiais reúne pilotos, proprietários de aeronaves e voluntários dispostos a ajudar pessoas que precisam se deslocar para tratamentos médicos longe de casa. Segundo a própria organização, ela já atendeu mais de 200 passageiros, realizou mais de 100 acionamentos e acumulou mais de 40 mil milhas náuticas voadas. A rede funciona de forma descentralizada: pilotos e proprietários de aeronaves se cadastram para realizar missões voluntárias, enquanto pessoas físicas e empresas podem contribuir financeiramente para custear deslocamentos, como aconteceu com a passagem aérea do voluntário que acompanhou o medicamento de Letícia.
Perguntas frequentes
O que é a ASES Brasil?
É uma organização não governamental criada em 2004 que conecta pilotos voluntários, proprietários de aeronaves e uma rede de apoio para transportar gratuitamente pacientes e insumos médicos urgentes entre cidades brasileiras, sobretudo quando o tempo de deslocamento por terra coloca o tratamento em risco.
Por que a missão não usou um único avião do início ao fim?
Porque a rota mais rápida disponível no momento combinava trechos: voos comerciais já programados cobriram parte do trajeto do medicamento com menor tempo total, enquanto a aviação geral serviu para o trecho sem opção comercial direta e compatível com a urgência do caso.
Como alguém pode ajudar ou pedir apoio à ASES Brasil?
Pilotos e proprietários de aeronaves podem se voluntariar para realizar missões, pessoas e empresas podem contribuir financeiramente, e pacientes podem solicitar apoio pelo formulário disponível no site oficial da organização.
Fontes
- AeroJota — ASES Brasil mobiliza aviação comercial e piloto voluntário para levar medicamento e paciente até Cuiabá
- ASES Brasil — Apoio Aéreo em Situações Especiais
Missões como essa dependem tanto de pilotos dispostos a voar quanto de aeronaves preparadas para emergências — os mesmos temas por trás de como funciona o kit médico de bordo em aviões comerciais e de novidades da aviação geral, como o eFlyer 2, o avião de treino elétrico certificado pela FAA.



