Decolagem Automática: Por Que o Brasil Será o Primeiro País do Mundo a Certificar essa Tecnologia da Embraer

Embraer E195-E2 da Porter Airlines, aeronave da família E2 que vai receber o E2TS, sistema de decolagem automática

Você sabia que, pela primeira vez na história da aviação comercial, um país vai certificar um sistema capaz de realizar sozinho uma das etapas mais delicadas do voo — a rotação durante a decolagem? E esse país é o Brasil. A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) está na reta final da certificação do E2TS, tecnologia desenvolvida pela Embraer para a família de jatos E2, com aval esperado entre setembro e outubro de 2026. Antes da FAA americana, antes da EASA europeia, será a autoridade brasileira a abrir esse capítulo inédito da aviação mundial. E o mais curioso é que a tecnologia por trás disso não veio de motores mais potentes nem de asas redesenhadas: veio de software.

Imagem: Embraer E195-E2 da Porter Airlines, aeronave da família E2 que vai receber o E2TS, sistema de decolagem automática. Foto de Andrew Heneen, via Wikimedia Commons (CC BY 4.0).

O que é o E2TS, o sistema que decola (quase) sozinho

O nome oficial é Embraer Enhanced Takeoff System, ou E2TS. Apesar de ser chamado de “sistema de decolagem automática”, ele não faz o avião sair do portão e decolar sozinho — a tripulação continua conduzindo toda a operação. O que o E2TS automatiza é uma fase específica e crítica: a rotação, momento em que o piloto puxa o manche para erguer o nariz da aeronave e iniciar a saída do solo, e a trajetória inicial de subida logo em seguida. Essa manobra sempre exigiu precisão manual, mesmo em aviões com piloto automático avançado, porque envolve limites rígidos de inclinação para evitar que a cauda toque a pista. O E2TS assume esse comando com uma repetibilidade que a mão humana não alcança, aproveitando ao máximo os limites geométricos e de desempenho da aeronave, sempre com a tripulação supervisionando e pronta para intervir.

Por que a ANAC pode ser a primeira autoridade do mundo a validar isso

Sistemas de pouso automático existem há décadas e o piloto automático assume o comando pouco depois da decolagem — nada disso é novidade. O que nunca existiu em um avião comercial certificado é a automação da própria rotação. Por isso, segundo reportagem da Reuters, o presidente da ANAC, Tiago Chagas Faierstein, afirmou que o processo de certificação está em fase final, com autoridades dos Estados Unidos e da Europa já acompanhando as discussões para um eventual reconhecimento futuro. O diretor da agência, Roberto Honorato, relatou à CNN Brasil que a ANAC acompanhou pessoalmente testes do sistema em condições de vento cruzado, avaliando tanto o comportamento da aeronave quanto a resposta dos pilotos. Não é uma certificação de rotina: a ANAC precisou construir, praticamente do zero, os próprios requisitos técnicos para avaliar uma função que não existe em nenhum outro avião comercial em operação.

Da Farnborough 2024 até a reta final de 2026

A Embraer apresentou o E2TS publicamente no Farnborough International Airshow, em julho de 2024, depois de cerca de três anos de desenvolvimento interno. Na ocasião, a fabricante explicou que se tratava essencialmente de uma evolução de software incorporada ao sistema fly-by-wire dos jatos E190-E2 e E195-E2 — ou seja, boa parte da mudança está no cérebro eletrônico que já controla as superfícies de voo dessas aeronaves, e não em uma peça física nova. O plano inicial previa disponibilizar a tecnologia já no quarto trimestre de 2025, mas o cronograma avançou justamente pelo ineditismo regulatório: o Plano Anual de Diretrizes Estratégicas de 2026 da própria ANAC passou a incluir, entre seus objetivos, o estabelecimento dos requisitos e meios de cumprimento específicos para certificar o E2TS.

O que muda na prática: mais alcance, mais carga, menos pista

O ganho comercial do E2TS aparece justamente quando a pista é curta ou há obstáculos na trajetória de saída, situações em que uma companhia aérea normalmente precisa reduzir o peso de decolagem — embarcando menos combustível, passageiros ou carga — para cumprir os requisitos de desempenho. Ao tornar a rotação e a subida inicial mais precisas e consistentes, o sistema permite recuperar parte dessa margem. Quando apresentou a tecnologia em 2024, a Embraer estimava ganhos equivalentes a 250 a 500 milhas náuticas de alcance em determinadas condições, sem reduzir o peso de decolagem. No exemplo mais citado pela fabricante, o London City Airport — que tem pista de apenas cerca de 1.500 metros e exige certificação especial das aeronaves —, o ganho calculado chega a cerca de 350 milhas náuticas, o equivalente a 650 km. Aeroportos como Florença e o Santos Dumont, no Rio de Janeiro, também estão entre os cenários em que essa vantagem pode fazer diferença. Não à toa, a americana Avelo Airlines citou o E2TS como um dos atrativos ao encomendar 50 jatos E195-E2 em 2025, com direitos de compra para outros 50.

Segurança em primeiro lugar: falha de motor e supervisão humana

A Embraer afirma que o E2TS foi projetado para continuar funcionando mesmo em uma situação de falha de motor durante a decolagem, um dos cenários mais exigentes para qualquer sistema automatizado nessa fase do voo. E, apesar do nome chamativo, a tecnologia não elimina a tripulação da equação: os pilotos seguem supervisionando toda a operação e podem intervir a qualquer momento. É um reforço de precisão e consistência, não uma substituição da função humana — o mesmo princípio que já rege outras automações consolidadas na cabine de comando.

Perguntas frequentes

O piloto ainda é necessário durante a decolagem com o E2TS?

Sim. O E2TS automatiza apenas a rotação e a trajetória inicial de subida; a tripulação continua conduzindo e supervisionando toda a decolagem, com capacidade de intervir a qualquer momento caso necessário.

Quais aviões vão receber o E2TS?

A tecnologia foi desenvolvida para a família E2 da Embraer, especificamente os modelos E190-E2 e E195-E2. Como a mudança está concentrada em software do sistema fly-by-wire, a Embraer prevê oferecê-la também como atualização para aeronaves já entregues, não apenas para jatos novos.

Quando o E2TS deve começar a operar comercialmente?

A ANAC prevê concluir a certificação brasileira entre setembro e outubro de 2026. Depois disso, o sistema ainda dependerá de validação por autoridades internacionais, como a FAA nos Estados Unidos e a EASA na Europa, para que operadores fora do Brasil possam utilizá-lo.

Fontes

Essa automação da rotação é só mais um capítulo de uma história que já vem de longe na aviação comercial — vale relembrar o piloto automático que já conhecemos e entender, de forma mais ampla, o que o piloto passa a monitorar à medida que mais funções do voo passam para as mãos dos computadores de bordo.

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