No fim de julho de 2026, um único avião de testes conseguiu algo que nenhum voo comercial havia feito antes: reunir quase 3,7 milhões de pessoas assistindo, ao vivo, o mesmo pontinho se mover em um mapa. O protagonista foi um Airbus A350-1000ULR, a versão de ultra longo alcance que a Qantas encomendou para o Project Sunrise, e o motivo do interesse coletivo foi simples de entender e ao mesmo tempo fascinante: esse avião estava prestes a voar mais longe, sem escalas, do que qualquer aeronave comercial já havia voado. A seguir, contamos como esse voo aconteceu, como é possível acompanhar um avião em tempo real do outro lado do mundo e por que esse fenômeno diz muito sobre o momento atual da aviação comercial.
Imagem: Airbus A350 XWB em voo de testes, mesma família do A350-1000ULR que fez o voo recorde Melbourne-Toulouse. Foto de Sellies Christophe, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Em 27 de julho de 2026, o A350-1000ULR de testes, prefixo F-WULR, decolou de Melbourne, na Austrália, às 07h28 UTC. Em vez de seguir para oeste, o caminho mais curto de volta à fábrica da Airbus em Toulouse, na França, a aeronave decolou rumo ao Pacífico, cruzou a América do Norte e depois o Atlântico, pousando em Toulouse às 07h52 UTC do dia seguinte. Foram 24 horas e 24 minutos no ar, cobrindo 12.460 milhas náuticas, ou 23.075,92 quilômetros, distância que, embora ainda não certificada oficialmente, provavelmente supera o recorde de maior distância voada sem escalas por uma aeronave comercial, até então nas mãos de um Boeing 777-200LR que voou de Hong Kong a Londres em 2005. Não foi coincidência: a rota foi desenhada de propósito pela Airbus para sobrevoar Sydney, Londres e a fábrica onde os motores da aeronave são fabricados, testando o avião e seus sistemas no limite de uma missão de mais de 23 horas de bloco.
Boa parte do fascínio em torno desse voo só existe porque hoje qualquer pessoa com um celular pode abrir um aplicativo e ver, ao vivo, a posição exata de um avião sobre o oceano. Isso é possível graças a uma combinação de tecnologias. A principal é o ADS-B (Automatic Dependent Surveillance-Broadcast), sistema pelo qual o próprio avião transmite, várias vezes por segundo, sua posição obtida por GPS, altitude, velocidade e outros dados, captados por uma rede de receptores terrestres e por satélites. Em áreas sem cobertura de receptores ADS-B, entra em cena a MLAT (multilateração), técnica que calcula a posição da aeronave a partir da diferença de tempo em que o sinal do transponder chega a diferentes receptores no solo. O Flightradar24 combina essas duas fontes com dados de radar tradicional para montar o mapa de tráfego aéreo que milhões de pessoas acompanham diariamente, e foi exatamente essa infraestrutura que permitiu seguir o A350-1000ULR minuto a minuto, oceano após oceano, durante mais de 24 horas seguidas.
Segundo o próprio Flightradar24, o voo Melbourne-Toulouse acumulou 3.652.947 acompanhamentos (follows) na plataforma, tornando-se o segundo voo mais rastreado da história do site. À frente dele está apenas o último voo da rainha Elizabeth II, em setembro de 2022, que reuniu mais de 5 milhões de pessoas entre site, aplicativo e transmissão ao vivo. Curiosamente, o próprio A350-1000ULR já havia entrado nesse ranking histórico dias antes: a etapa anterior da viagem, de Toulouse até Melbourne, concluída em 19 horas e 12 minutos em 24 de julho, havia acumulado 2.972.670 acompanhamentos, ficando em terceiro lugar entre os voos mais rastreados de todos os tempos. Ou seja, o mesmo avião protagonizou, na mesma semana, dois dos quatro voos mais assistidos na história do Flightradar24.
O voo do A350-1000ULR não foi o único destaque de julho de 2026 para o Flightradar24. Poucos dias antes, em 23 de julho, a plataforma havia registrado 153.359 voos comerciais rastreados em 24 horas, o maior número já contabilizado em um único dia, um aumento de 5,9% em relação à mesma quinta-feira de 2025 (144.806 voos). Somando todas as categorias de tráfego, incluindo aviação geral, militar e privada, o total daquele dia chegou a 287.364 voos, o segundo maior volume já registrado (o recorde absoluto, com 289.586 voos, havia sido estabelecido em 8 de abril de 2026). É um contraste e tanto: de um lado, centenas de milhares de voos comuns cruzando o céu no mesmo dia; do outro, milhões de pessoas concentradas em acompanhar um único avião extraordinário.
O A350-1000ULR está sendo desenvolvido especificamente para o Project Sunrise da Qantas, que pretende conectar a costa leste da Austrália, sem escalas, a Londres e Nova York, com previsão de início das operações comerciais entre Sydney e Londres em outubro de 2027. Para viabilizar essas missões de cerca de 19 a 20 horas, a aeronave recebeu um tanque de combustível adicional, com capacidade para cerca de 20.000 litros extras, e terá uma configuração de cabine reduzida para 238 passageiros, priorizando conforto e autonomia em vez de densidade de assentos. A Qantas encomendou 12 unidades do modelo. O voo de teste de 24 horas e 24 minutos não foi apenas uma proeza técnica isolada: foi a demonstração pública de que a aviação comercial está, de fato, se aproximando de rotas que eliminam praticamente qualquer escala entre continentes distantes, e o interesse maciço do público sugere que esse tipo de marco vai continuar atraindo atenção global.
A rota foi planejada de propósito pela Airbus como parte do programa de testes de certificação da aeronave. O objetivo era validar o avião e seus sistemas durante uma missão excepcionalmente longa, de mais de 23 horas de bloco, além de sobrevoar pontos estratégicos como Sydney, Londres e a fábrica dos motores da aeronave ao longo do trajeto.
O recorde pertence ao último voo da rainha Elizabeth II, em setembro de 2022, que reuniu mais de 5 milhões de acompanhamentos entre o site, o aplicativo e a transmissão ao vivo do Flightradar24. O voo do A350-1000ULR entre Melbourne e Toulouse, com 3.652.947 acompanhamentos, ficou em segundo lugar nesse ranking histórico.
É o programa da Qantas para operar voos comerciais ultra-longos e sem escalas entre a costa leste da Austrália e destinos como Londres e Nova York, usando o A350-1000ULR. A companhia encomendou 12 dessas aeronaves e planeja iniciar os voos comerciais entre Sydney e Londres em outubro de 2027.
Esse tipo de missão gigantesca só é viável graças a certificações rigorosas de segurança para voos longos e distantes de aeroportos de alternativa, o mesmo princípio por trás da certificação ETOPS que permite voos longos com apenas dois motores sobre o oceano. E se você já reparou que aviões raramente cruzam o mapa em linha reta, vale entender por que os aviões nem sempre voam em linha reta, um tema que ajuda a explicar por que rotas como essa do A350-1000ULR são desenhadas com tanto cuidado antes da decolagem.
Aproveite para compartilhar clicando no botão acima!
Esta página foi gerada pelo plugin
Visite nosso site e veja todos os outros artigos disponíveis!