Quando você compra uma passagem aérea no Brasil, o número que aparece na tela já vem com uma pilha de tarifas, impostos e encargos embutidos que raramente são explicados — e que estão prestes a mudar de forma significativa com a reforma tributária. Entender o que realmente compõe esse preço ajuda a explicar por que voar no Brasil custa o que custa, e por que o setor aéreo tem soado o alarme sobre os próximos anos.
Imagem: hall de check-in do Terminal 2 do Aeroporto de Guarulhos (GRU), em São Paulo. Foto de Jcornelius, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
A tarifa de embarque é, hoje, a única tarifa aeroportuária paga diretamente pelo passageiro e embutida no preço final da passagem — todas as outras tarifas aeroportuárias (pouso, permanência, uso de pontes de embarque, entre outras) são cobradas das companhias aéreas, não do consumidor final. Segundo levantamento do setor, o valor médio da tarifa de embarque doméstica no Brasil está em torno de R$ 48,81 por passageiro, enquanto a internacional gira em torno de R$ 86,42 — e cada aeroporto define seu próprio valor dentro dos limites estabelecidos pela ANAC. Apesar de aparecer destacada na hora da compra, essa tarifa representa uma fatia pequena do preço total: a ANAC estima que o conjunto de tarifas aeroportuárias correspondeu a apenas 1,4% dos custos de operação de um voo em 2024.
Bem mais impactante que qualquer taxa de embarque é o custo do querosene de aviação (QAV), que responde por cerca de 23% das despesas operacionais médias de uma companhia aérea no mundo. No Brasil, o QAV ainda carrega um ICMS que varia por estado: 3% nos estados do Norte, 7% no Centro-Oeste, Nordeste, Sul, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Distrito Federal, e 10% em São Paulo — uma disparidade que ajuda a explicar por que rotas que partem de determinados estados tendem a ser mais caras que outras com distância semelhante. O Rio de Janeiro, por exemplo, aprovou em 2026 a manutenção da alíquota reduzida de 7% sobre o QAV até abril de 2027, justamente para tentar segurar o impacto desse imposto no preço final das passagens.
O maior alerta do momento vem da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), que estima que a reforma tributária em curso pode triplicar a carga de tributos pagos na venda de bilhetes aéreos. A nova alíquota final do IVA brasileiro — soma da CBS federal com o IBS estadual e municipal — tem teto de 26,5% previsto na lei complementar que regulamenta a reforma. Caso esse teto seja mantido para passagens internacionais, o efeito prático seria um imposto de 13,25% sobre o valor do bilhete de ida e volta, incidindo diretamente sobre o que o passageiro paga. Executivos do setor já projetam aumentos superiores a 20% nas passagens como consequência da mudança.
Diferentemente da taxa de embarque, que aparece discriminada no momento da compra, encargos como o ICMS sobre combustível, tarifas de pouso e permanência cobradas das companhias, e os próprios tributos federais sobre a receita das empresas aéreas não aparecem linha a linha na sua passagem — eles são incorporados ao preço final antes mesmo de o bilhete chegar à tela de compra. Por isso, comparar o preço de uma mesma rota entre estados diferentes, ou antes e depois de mudanças tributárias regionais, costuma revelar variações que não têm relação nenhuma com distância ou demanda, e sim com a carga de impostos aplicada em cada ponta da rota.
Não. Cada aeroporto define seu próprio valor de tarifa de embarque, respeitando o teto estabelecido pela ANAC, o que faz com que aeroportos maiores ou com mais infraestrutura tendam a cobrar valores mais altos que aeroportos regionais menores.
Depende da regra tarifária da passagem comprada e do momento do cancelamento, mas de forma geral, taxas e tarifas obrigatórias (como a tarifa de embarque) costumam ser reembolsáveis mesmo quando a tarifa da passagem em si não é, já que elas remuneram um serviço que não chegou a ser prestado.
A reforma tributária brasileira está em fase de transição, com implementação gradual dos novos tributos (CBS e IBS) ao longo dos próximos anos. O impacto específico sobre o setor aéreo, incluindo a alíquota final aplicada a passagens internacionais e domésticas, ainda depende de regulamentações complementares que seguem sendo debatidas entre governo e o setor.
Essa conta de custos e impostos ajuda a explicar duas tendências que parecem opostas no mercado brasileiro: entenda por que voar está, ainda assim, cada vez mais barato em termos reais, e como as companhias aéreas usam hedge de combustível para se proteger da volatilidade do preço do querosene.
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