Logo depois de tocar a pista, quem já viajou de avião conhece o som: um rugido súbito dos motores, quase como se a aeronave estivesse acelerando de novo. Na verdade, é o oposto — é o reversor de empuxo entrando em ação, um dos sistemas mais engenhosos (e menos compreendidos) da aviação comercial, responsável por ajudar a parar dezenas de toneladas de avião em poucos segundos.
Imagem: Boeing 737-200 da Aloha Airlines com o reversor de empuxo acionado após o pouso. Foto de Bryan (Taurus Photographix), via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).
O reversor de empuxo (thrust reverser) é uma modificação temporária do fluxo de ar do motor que redireciona os gases de exaustão para a direção contrária ao deslocamento da aeronave. Em vez de empurrar o avião para frente, o sistema desvia esse fluxo — geralmente por meio de "conchas" defletoras ou grades (cascatas) — formando um ângulo de cerca de 45 graus, o que gera uma força de desaceleração.
Aeronaves mais antigas, como o Boeing 737-200, usam reversores do tipo "bucket" (concha), painéis que fecham fisicamente atrás do motor para bloquear e redirecionar o fluxo de ar. Já os motores modernos, como os do Airbus A320neo e do Boeing 737 MAX, usam reversores de cascata: grades fixas que se abrem para desviar o ar frio do fluxo (bypass) do motor, sem interferir no núcleo quente da turbina.
O reversor de empuxo é um sistema secundário de frenagem — o principal continua sendo os freios de carbono das rodas, auxiliados pelos spoilers (freios aerodinâmicos nas asas). Ainda assim, em altas velocidades, o reversor pode responder por até 40% do esforço total de desaceleração, e sua contribuição pode chegar a 50% em pistas contaminadas por água, neve ou gelo — condições em que os freios das rodas perdem eficiência. Seu uso pode reduzir a distância de pouso em até 20%.
Nem toda aeronave usa reversores em todos os motores. O Airbus A380, por exemplo, tem reversores de empuxo instalados apenas nos dois motores internos (mais próximos da fuselagem) — a engenharia da Airbus concluiu que essa combinação já gera força reversa suficiente, dispensando o sistema (e o peso extra) nos motores externos.
Em pistas secas e longas, muitas companhias aéreas optam por usar o reversor apenas em marcha lenta ("idle reverse"), reservando a potência máxima para situações de pista molhada, curta ou contaminada. A razão é econômica: o uso de reversão total aumenta o desgaste do motor e o consumo de combustível, então operadores preferem preservar a vida útil da turbina quando os freios convencionais já são suficientes.
Sim. O reversor é um sistema auxiliar; os freios das rodas e os spoilers sozinhos são capazes de parar a aeronave com segurança na maioria das pistas, embora com uma distância de frenagem maior.
Porque o som e a vibração do motor aumentam repentinamente logo após o toque na pista, dando a sensação de aceleração — quando na verdade é o oposto: o motor está trabalhando para desacelerar o avião.
A grande maioria das aeronaves comerciais modernas tem, mas o desenho varia bastante entre fabricantes e modelos — alguns jatos executivos pequenos e algumas aeronaves turboélice, por exemplo, usam sistemas de reversão adaptados à hélice em vez de defletores de jato.
O reversor é só uma peça do quebra-cabeça que leva um avião do ar até o solo com segurança: entenda também como funciona o trem de pouso de um avião comercial e como o motor turbofan gera o empuxo que, na hora do pouso, é revertido.
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