Quando uma companhia aérea compra um avião novo, um dos maiores itens do contrato muitas vezes não é o preço do motor em si, mas o modelo de como ele será mantido ao longo de décadas de operação. Boa parte da frota mundial de jatos comerciais funciona sob um esquema batizado há mais de 60 anos de "Power-by-the-Hour" (energia por hora), no qual a companhia aérea não paga pela manutenção do motor quando ela acontece — ela paga um valor fixo por cada hora que o motor voa, esteja ele precisando de reparo naquele mês ou não.
Imagem: Motor de Airbus A380 da Singapore Airlines durante manutenção de rotina, modelo de negócio conhecido como power-by-the-hour. Foto de Aldo Bidini, via Wikimedia Commons (GFDL 1.2).
O termo "Power-by-the-Hour" foi registrado como marca pela Rolls-Royce, mas a ideia nasceu na fabricante britânica de motores Bristol Siddeley, incorporada depois pela Rolls-Royce, para dar suporte ao motor Viper usado no jato executivo de Havilland/Hawker Siddeley 125. Em vez de cobrar cada peça e cada hora de mão de obra sempre que um motor precisasse de reparo, a fabricante passou a oferecer manutenção completa cobrada como uma taxa fixa por hora de voo.
Sob esse esquema, a companhia aérea paga um valor por hora de voo de cada motor — e não pelo conserto pontual de uma peça quebrada. Esse valor cobre a substituição completa do motor e de seus acessórios ao longo do contrato. Na prática, isso transfere o risco financeiro de falhas inesperadas do operador da aeronave para o fabricante ou para a empresa de manutenção responsável pelo contrato.
A lógica por trás do modelo é simples: se o fabricante só recebe quando o motor está voando, ele tem um incentivo financeiro direto para construir motores mais confiáveis e que passem menos tempo parados em manutenção não programada. Do lado da companhia aérea, o modelo transforma um custo historicamente imprevisível — reparos emergenciais de motor podem custar milhões de dólares sem aviso — em uma despesa previsível, facilitando o planejamento financeiro de longo prazo.
Nas décadas seguintes, o conceito evoluiu e se espalhou para a aviação comercial de grande porte. A Rolls-Royce lançou o CorporateCare em 2002, incorporando monitoramento eletrônico da saúde do motor em tempo real através de sensores de bordo, e mais tarde o programa TotalCare, cobrado por hora de voo e amplamente adotado por operadores de motores como o Trent, usado em aviões widebody como o Airbus A380 e o Boeing 787. Hoje, concorrentes como GE Aerospace (com o programa OnPoint) e Pratt & Whitney oferecem esquemas semelhantes, tornando o modelo praticamente padrão de mercado para motores de aviação comercial.
Esse modelo de manutenção influencia diretamente a estrutura de custos de qualquer companhia aérea. Contratos de Power-by-the-Hour costumam representar uma parcela relevante e previsível do custo operacional por hora de voo de uma aeronave — ao lado de itens como combustível, arrendamento e tripulação —, e sua previsibilidade é um dos motivos pelos quais companhias aéreas conseguem planejar preços e rotas com mais segurança financeira ao longo de contratos que podem durar 15 anos ou mais.
Sim, na maioria dos contratos a companhia aérea continua sendo proprietária ou arrendatária do motor; o que muda é apenas a forma de pagamento pela manutenção, que passa a ser cobrada por hora de voo em vez de por reparo pontual.
É mais comum em motores novos entregues com o avião, já que o fabricante consegue prever com mais precisão os custos de manutenção ao longo do ciclo de vida completo do motor, mas contratos de manutenção por hora de voo também existem para frotas em operação.
Não totalmente, mas reduz de forma significativa a exposição a custos inesperados de reparo, já que o valor pago por hora de voo já está definido em contrato, mesmo que aquele motor específico precise de uma manutenção mais cara naquele período.
Esse modelo de manutenção é só uma peça da engrenagem financeira por trás de cada avião em operação. Veja também como funciona o valor residual e a depreciação de aeronaves comerciais e quanto custa, de fato, uma hora de voo de um Boeing ou Airbus.
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