Quem já olhou pela janela do avião durante um pouso provavelmente notou dois números gigantes pintados no início da pista. Eles não são decorativos nem aleatórios: são, na prática, uma bússola gigante desenhada no chão, e todo piloto do mundo lê esse código do mesmo jeito, em qualquer idioma, em qualquer país. O curioso é que, de tempos em tempos, esses números precisam ser repintados — não porque a pista mudou de lugar, mas porque o próprio planeta Terra mudou de direção magnética abaixo dela.
Imagem: pista 05/23 do Aeroporto de Wagga Wagga, na Austrália, com a numeração pintada na cabeceira. Foto de Bidgee, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0 au).
Cada pista recebe um número de 01 a 36, baseado na sua orientação magnética arredondada para a dezena mais próxima — basta remover o zero final. Uma pista orientada a 090° (apontando para o leste) se torna a pista 09; uma orientada a 180° (sul) vira a pista 18; a 270° (oeste) é a pista 27; e a 360°, que é o norte, vira a pista 36 — nunca "00". Como toda pista pode ser usada em dois sentidos, ela recebe dois números, sempre com exatamente 180° de diferença entre eles: a pista 15 é a mesma pista 33, vista do lado oposto. No rádio, os pilotos sempre pronunciam os dígitos separadamente — "pista um-cinco", nunca "pista quinze" — justamente para evitar qualquer confusão de comunicação em um momento crítico do voo.
Aeroportos grandes costumam ter pistas paralelas, e nesse caso o mesmo número básico recebe uma letra adicional: L (esquerda), C (centro) ou R (direita). Três pistas paralelas, por exemplo, poderiam ser chamadas de 09L, 09C e 09R. Em aeroportos com quatro ou mais pistas paralelas — como os americanos LAX, Atlanta, Dallas/Fort Worth, Denver e Orlando —, às vezes os números são deslocados em uma unidade para evitar repetição. O Aeroporto de Dallas/Fort Worth, por sinal, tem cinco pistas paralelas simultâneas: 17L, 17C, 17R, 18L e 18R, todas compartilhando uma orientação magnética de aproximadamente 175,4°.
Em setembro de 2022, o Aeroporto Internacional de Guarulhos (Cumbica), o maior do Brasil, passou por uma situação rara: suas pistas, até então chamadas de 09L/27R e 09R/27L, foram oficialmente renumeradas para 10L/28R e 10R/28L. A mudança aconteceu da noite de 7 para a madrugada de 8 de setembro de 2022 e foi determinada pelo DECEA, o Departamento de Controle do Espaço Aéreo, ligado à Força Aérea Brasileira. Segundo a própria GRU Airport, operadora do aeroporto, essa foi a primeira vez que uma alteração desse tipo foi necessária desde a inauguração do aeroporto, em 1985. O motivo não foi nenhuma obra ou reforma: o campo magnético da Terra se desloca lentamente, a uma taxa de aproximadamente um grau por década segundo a FAB, e esse deslocamento gradual afeta a bússola magnética que os pilotos usam para se alinhar com a pista durante a aproximação final. A mudança em Guarulhos exigiu repintar as cabeceiras, atualizar documentos de navegação, sistemas de informação de tráfego aéreo e toda a sinalização de solo nas pistas e pátios.
Guarulhos não é um caso isolado. O Aeroporto de Genebra (GVA), na Suíça, mudou sua numeração de 05/23 para 04/22, e o Aeroporto de Londres Stansted (STN) fez o mesmo ajuste, também da noite para o dia. Como regra geral, uma pista só precisa ser renumerada quando a variação acumulada no campo magnético chega a cerca de 5 graus ou mais — o suficiente para que o número arredondado em dezenas mude.
Porque o norte magnético corresponde a 360°, não a 0°. Ao remover o zero final de 360, o resultado é 36 — e essa convenção evita qualquer ambiguidade que o número "00" poderia causar na comunicação por rádio.
Porque a numeração é baseada no norte magnético, e não no norte geográfico verdadeiro. O campo magnético da Terra se desloca lentamente ano a ano, e quando essa variação acumulada muda o número arredondado da pista, autoridades como o DECEA, no Brasil, ou a FAA, nos Estados Unidos, determinam a repintura e a atualização de toda a documentação de navegação.
Pelas letras L, C e R, que indicam, respectivamente, esquerda, centro e direita. Um controlador de tráfego aéreo pode instruir um piloto a pousar especificamente na "pista um-sete direita" (17R), por exemplo, quando o aeroporto tem múltiplas pistas paralelas.
Entender a numeração das pistas é só o primeiro passo para compreender como o solo do aeroporto é organizado para evitar colisões. Para ver como esse mesmo cuidado se estende à prevenção de dois aviões cruzando a mesma pista ao mesmo tempo, veja Incursão em Pista: o Que É, Quais as Causas Mais Comuns e Como os Aeroportos Evitam Colisões em Solo. E para entender quem, de fato, decide a ordem de pousos e decolagens em cada uma dessas pistas, leia Como Funciona uma Torre de Controle: Sequenciamento e Separação de Aeronaves no Brasil.
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