Até os anos 1980, um avião com apenas dois motores simplesmente não podia fazer determinadas rotas longas sobre o oceano. A regra era rígida: no máximo 60 minutos de voo até o aeroporto alternativo mais próximo em caso de pane de um motor. Hoje, aviões bimotores como o Boeing 777 e o Airbus A350 cruzam o Atlântico e o Pacífico em rotas que os deixam, por horas, a milhares de quilômetros de qualquer pista. A mudança tem nome: ETOPS, a sigla que resume décadas de avanço em confiabilidade de motores e redundância de sistemas.
Imagem: motor GE90 sob a asa de um Boeing 777-200LR da Air Canada, em voo sobre a Sibéria. Foto de Kristoferb, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).
Nas décadas de 1960 e 1970, aviões com apenas dois motores eram obrigados a permanecer a, no máximo, 60 minutos de voo de um aeroporto de desvio adequado. Isso bastava para voos domésticos, mas inviabilizava rotas longas e de menor densidade entre cidades médias nos dois lados do Atlântico ou do Pacífico. Para esse tipo de rota, as companhias aéreas recorriam a trijatos — que não estavam sujeitos à mesma restrição — ou a quadrimotores, mais caros de operar e que só faziam sentido em voos quase sempre com ocupação próxima da máxima.
A sigla ETOPS significa "Extended-range Twin-engine Operational Performance Standards" e nasceu nos anos 1980 como um conjunto de exigências de redundância, comunicação e combate a incêndio que comprova que um bimotor consegue voar em segurança mesmo com apenas um motor funcionando. A TWA foi a primeira companhia autorizada a usar a certificação para operar um Boeing 767 na rota Boston–Paris, em 1985 — o marco que, na prática, abriu o Atlântico Norte para aviões de dois motores.
O número que acompanha a sigla ETOPS indica o tempo máximo de desvio, em minutos, até um aeroporto alternativo adequado. A primeira certificação da FAA foi a ETOPS-120, seguida pela ETOPS-180 — adotada em 1988 —, que permite à aeronave operar em qualquer ponto a até 180 minutos de um aeroporto de desvio. Para operar sob qualquer uma dessas certificações, a companhia aérea também precisa cumprir exigências específicas de tripulação, manutenção, planejamento de despacho, plano de recuperação de passageiros e cálculo de combustível.
O Boeing 777, lançado em 1990, foi o primeiro avião certificado com ETOPS-180 já na entrada em serviço — embora a autoridade europeia da época (JAA) só tenha concedido inicialmente ETOPS-120 às companhias europeias, exigindo um histórico de operação sem problemas antes de liberar o valor maior. Em 2011, a FAA concedeu a uma versão do 777 equipada com motores GE a certificação ETOPS-330. O Airbus A330 foi o primeiro a receber ETOPS-240, em 2009. O Boeing 787 alcançou ETOPS-330 em maio de 2014, e o Boeing 747-8 recebeu a mesma certificação em 2015 — tornando-se o primeiro quadrimotor a ostentar um valor pensado originalmente para bimotores. O Airbus A350 XWB, por sua vez, recebeu das autoridades europeias a certificação ETOPS-370 antes mesmo de entrar em serviço, hoje o maior valor em uso comercial.
Sem a ETOPS, companhias aéreas dependiam de aviões maiores e mais caros de operar para viabilizar rotas longas e finas entre cidades de porte médio. Com a certificação, bimotores mais eficientes em consumo de combustível passaram a cobrir essas mesmas rotas com custo operacional menor, tornando viáveis ligações diretas que antes só existiam na teoria. É por isso que voos como o da Singapore Airlines entre São Francisco e Singapura, que depende diretamente de certificação ETOPS, só se tornaram possíveis à medida que a tecnologia de motores avançou.
Não é esse o objetivo. A certificação garante que, numa eventual pane de um motor, a aeronave ainda tenha autonomia e sistemas suficientes para alcançar com segurança um aeroporto alternativo dentro do tempo definido pela certificação — não para operar rotas inteiras com um único motor.
Não necessariamente. A certificação depende do modelo da aeronave, da configuração de motores e da aprovação específica obtida pela companhia aérea que o opera, não é uma característica automática de qualquer bimotor.
Formalmente a sigla nasceu para bimotores, mas quadrimotores como o Boeing 747-8 também passaram a receber classificações equivalentes, já que a lógica de redundância e tempo de desvio se aplica, em alguma medida, a qualquer configuração de motores.
A certificação ETOPS foi justamente o que permitiu o retorno de emergência do voo SQ31 da Singapore Airlines em pleno meio do Pacífico. E para entender por que nem todo avião pode voar lotado e longe ao mesmo tempo, veja como funciona o gráfico de payload-range.
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