Quando um avião pousa longo demais ou uma decolagem precisa ser abortada em cima da hora, a diferença entre um susto e uma tragédia pode ser uma faixa de material projetado para se esmagar sob o peso da aeronave. Esse sistema existe, tem nome — EMAS, sigla para Engineered Materials Arresting System — e já parou 26 aviões com 497 pessoas a bordo nos Estados Unidos, segundo dado oficial da FAA atualizado em agosto de 2026. E sim, o Brasil também tem um: instalado bem no meio de São Paulo, no Aeroporto de Congonhas.
Imagem: leito de EMAS na cabeceira da pista 22R do Aeroporto Internacional Logan, em Boston. Foto de 4300streetcar, via Wikimedia Commons (CC BY 4.0).
O EMAS é uma área construída logo após o fim da pista, feita de blocos de concreto celular leve e esmagável (ou, em versões mais recentes, espuma de sílica reciclada) organizada em camadas. Quando um avião ultrapassa a pista — o que a indústria chama de "runway excursion" —, os pneus afundam nesse material, que se desintegra sob o peso da aeronave e gera uma resistência crescente e previsível. O resultado é uma desaceleração forte, mas controlada, sem o impacto abrupto de bater contra uma cerca, um barranco ou uma via pública.
Segundo a FAA, um sistema EMAS padrão é dimensionado para parar completamente a aeronave crítica daquela pista quando ela entra no leito a até 70 nós (cerca de 130 km/h). A tecnologia foi desenvolvida a partir da década de 1990 pela FAA em conjunto com a Universidade de Dayton, a Port Authority de Nova York e Nova Jersey e a então Engineered Arresting Systems Corporation (ESCO) — hoje Runway Safe, fabricante que segue como única fornecedora certificada dos produtos EMASMAX® e greenEMAS® nos padrões da FAA.
A solução existe porque nem todo aeroporto tem espaço de sobra. As normas atuais pedem uma área de segurança de pista (RSA) livre de obstáculos que pode chegar a 150 metros de largura e se estender por 300 metros além de cada cabeceira. O problema é que muitos aeroportos foram construídos antes dessas regras, nos anos 1980, e estão cercados por água, rodovias, ferrovias ou áreas urbanas densas — exatamente os casos em que não dá para simplesmente "esticar" a pista. O EMAS foi criado como alternativa de engenharia para esses aeroportos: em vez de mais espaço, mais capacidade de absorver energia em menos distância.
A FAA mantém um registro público de todo evento em que o EMAS efetivamente parou uma aeronave. Desde o primeiro caso, em maio de 1999 (um Saab 340 no aeroporto JFK, em Nova York), até abril de 2026 (um jato executivo Learjet 60 em Teterboro, Nova Jersey), foram 26 ocorrências documentadas. Alguns exemplos dão a real dimensão do risco evitado: em julho de 2008, um Airbus A320 com 145 pessoas a bordo saiu da pista no aeroporto O'Hare, em Chicago, e foi parado pelo EMAS; em outubro de 2016, um Boeing 737 com 37 ocupantes teve o mesmo desfecho em LaGuardia, Nova York. Em nenhum desses 26 casos houve fatalidade atribuída à saída de pista em si — o sistema fez exatamente o que foi projetado para fazer.
Depois de décadas de debate sobre a segurança das cabeceiras de Congonhas — uma pista de cerca de 1.800 metros cercada por avenidas movimentadas no meio de São Paulo —, a ANAC homologou em 2022 a instalação de EMAS nas duas cabeceiras da pista principal (17R e 35L), tornando Congonhas o primeiro aeroporto da América Latina com a tecnologia. A obra, com investimento de R$ 122,5 milhões de recursos do FNAC (Fundo Nacional de Aviação Civil), criou áreas de escape de 72 x 47,4 metros em cada extremidade, cumprindo a exigência da RBAC 154 de uma RESA (Runway End Safety Area) mínima mesmo onde não havia espaço físico para o padrão convencional.
Sim, normalmente há dano ao trem de pouso e à parte inferior da fuselagem, já que os pneus afundam no material esmagável. Mas o objetivo do sistema é justamente trocar dano material por segurança: nos casos documentados pela FAA, a manutenção do avião foi possível e os ocupantes não sofreram ferimentos graves decorrentes da saída de pista.
A área de segurança de pista (RSA) tradicional é simplesmente uma faixa de terreno nivelada e livre de obstáculos, sem nenhum material especial — ela funciona porque o avião tem distância para desacelerar sozinho. O EMAS é usado justamente quando não existe espaço para essa faixa completa: ele concentra, em uma distância menor, a mesma capacidade de absorver a energia cinética do avião.
Não necessariamente — a FAA prioriza a solução para aeroportos onde a área de segurança padrão é fisicamente inviável. Onde há espaço suficiente, a área de segurança convencional (sem material algum) já cumpre a função com custo de manutenção muito menor. O EMAS é uma solução de engenharia para o cenário mais restritivo, não um substituto universal.
Para entender outros mecanismos que blindam o pouso e a decolagem contra falhas humanas e de comunicação, vale ler também sobre a incursão de pista, um dos riscos mais silenciosos dos aeroportos, e sobre por que, às vezes, o mais seguro é simplesmente não pousar: a arremetida (go-around) e por que ela é considerada um procedimento normal.
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