Antes de qualquer avião de linha decolar no Brasil, existe uma assinatura que poucos passageiros conhecem: a do despachante operacional de voo. É esse profissional — em terra, longe dos holofotes — quem planeja a rota, calcula o combustível necessário, avalia o clima e, em conjunto com o comandante, decide se aquele voo está apto a partir. Sem o despacho aprovado, o avião simplesmente não decola.
Imagem: Centro de Controle Operacional (TOCC) da Thai Airways no Aeroporto de Suvarnabhumi, Bangkok — um ambiente similar ao de despacho operacional de voo. Foto de MNXANL, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
O despachante operacional de voo (DOV) atua em solo, em auxílio direto ao piloto, no planejamento e acompanhamento de cada etapa do voo. Ele é responsável por calcular a rota mais eficiente, a quantidade de combustível necessária (incluindo reservas de segurança), analisar boletins meteorológicos e Notams (avisos aos aeroportos), e monitorar o voo do início ao fim a partir do centro de operações da companhia.
No Brasil, o cargo é obrigatório em operações regulares de companhias aéreas sob o RBAC nº 121 (que rege operações domésticas, regionais e internacionais de grande porte). Na prática, isso significa que voos comerciais regulares não podem operar sem o aval formal de um despachante — uma segunda camada de decisão técnica, independente do comandante, mas com autoridade conjunta sobre o despacho do voo.
A formação é feita em escolas homologadas pela ANAC, com disciplinas como meteorologia aeronáutica, navegação, regulamentação, performance de aeronaves e planejamento de voo. Depois da formação teórica, o candidato precisa cumprir um estágio operacional supervisionado de no mínimo 90 dias, realizando pelo menos 40 despachos reais sob supervisão de um profissional já habilitado, antes de poder atuar de forma independente.
Segundo dados de 2026, a remuneração da categoria varia de um piso médio de R$ 3.910,48 a um teto de R$ 6.039,19. Em companhias aéreas de grande porte, o salário inicial costuma ficar entre R$ 4.000 e R$ 6.000, enquanto despachantes experientes em posições de supervisão podem alcançar entre R$ 8.000 e R$ 12.000 mensais. São Paulo concentra o maior número de contratações da função no país.
O trabalho acontece em centros de controle operacional (também chamados de OCC, sigla em inglês) — salas cheias de telas com mapas meteorológicos, posições de aeronaves em tempo real e painéis de status de toda a malha aérea da companhia. É dali que o despachante acompanha o voo mesmo depois da decolagem, pronto para recalcular rotas em caso de mau tempo, turbulência prevista ou fechamento de espaço aéreo.
Não. O controlador de tráfego aéreo trabalha para os órgãos de controle do espaço aéreo (como o DECEA, no Brasil) e separa aeronaves em voo; o despachante trabalha para a companhia aérea e planeja e acompanha o voo específico daquela empresa.
Não é necessário ter licença de piloto, mas o despachante precisa de formação técnica específica homologada pela ANAC, com forte base em meteorologia, navegação e regulamentação.
Sim. A autoridade de despacho é compartilhada entre o comandante e o despachante — se um dos dois considerar que as condições não são seguras, o voo não é liberado.
O despachante é uma entre várias carreiras pouco conhecidas por trás de cada voo: veja também quanto ganha e como se forma um controlador de tráfego aéreo no Brasil, e como funciona a carreira de comissário de bordo.
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