Em média, dez aviões colidem com aves todos os dias no espaço aéreo brasileiro, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) — seis deles envolvendo aviação comercial. No mundo todo, a Federal Aviation Administration (FAA) dos Estados Unidos registra cerca de 10 mil colisões desse tipo por ano só em solo americano. A colisão com aves, conhecida internacionalmente como "bird strike", é a segunda maior causa de incidentes aeronáuticos, atrás apenas de falhas mecânicas — e por isso aeroportos e fabricantes investem pesado para reduzir o risco.
Imagem: equipe do Exército dos EUA realiza gerenciamento de risco de fauna em base aérea para prevenir colisões com pássaros. Foto de Connie Dickey (U.S. Army), via Wikimedia Commons (Domínio público).
Uma colisão com aves ocorre quando um pássaro (ou, mais raramente, outro animal) se choca com uma aeronave em voo, geralmente durante a decolagem ou a aproximação para pouso. Cerca de 90% dos casos acontecem próximo a aeroportos, já que é nessa fase que o avião voa mais baixo e mais devagar, cruzando altitudes onde aves costumam se deslocar em busca de alimento. De acordo com a FAA, 93% das colisões com aeronaves turbinadas ocorrem abaixo de 500 pés de altitude (cerca de 150 metros).
O perigo não está no impacto em si, mas em onde ele acontece: um pássaro sugado por um motor a jato, ou que atinja o para-brisa ou os comandos de voo, pode causar desde vibração e perda de potência até, em casos extremos, a parada total do motor — como no célebre pouso no Rio Hudson, em 2009, causado por uma revoada de gansos.
Segundo o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o Brasil registrou aproximadamente 3.400 colisões com pássaros entre 2023 e 2024. No RBAC nº 153, item 153.501, a ANAC obriga os operadores de aeródromos a manter um programa de gerenciamento do risco da fauna, sob pena de multas e até restrições operacionais para o terminal.
Nos Estados Unidos, a boa notícia é que a gravidade das colisões vem caindo: a FAA aponta que o percentual de colisões que causam dano à aeronave recuou de 6% em 1996 para 3,7% em 2024, mesmo com o tráfego aéreo crescendo. O peso médio das aves envolvidas nos strikes também caiu 64% entre 2000 e 2024, sinal de que o controle de espécies maiores (como urubus e gansos) nas proximidades dos aeroportos está funcionando.
O gerenciamento de risco de fauna combina biologia, engenharia e, às vezes, soluções bem pouco convencionais. Entre as técnicas mais usadas no Brasil e no mundo estão a eliminação de focos de atração — como lixo exposto, poças d'água e vegetação que atrai insetos —, barreiras físicas, canhões de gás propano para espantar bandos com estampidos e até equipes de falcoaria.
O Aeroporto de Brasília é um exemplo concreto: desde 2021, conta com cães da raça Border Collie treinados para pastorear aves para fora da pista e com "Tupã", um gavião-de-asa-de-telha usado para afugentar outras aves da área operacional. Nos Estados Unidos, a FAA também recorre a sistemas de radar aviário e câmeras infravermelhas capazes de detectar movimentação de aves a até 8 km de distância, além de drones para dispersar bandos em áreas de acesso difícil.
A prevenção não fica só no solo. Motores a jato modernos passam por testes obrigatórios de ingestão de aves antes de serem certificados — os fabricantes literalmente disparam carcaças de aves contra o motor em funcionamento para comprovar que ele resiste ou desliga com segurança sem se desintegrar. Para-brisas de cabine também são certificados para resistir a impactos em alta velocidade, e alguns modelos mais recentes de radar meteorológico de bordo já incorporam funções experimentais de detecção de bandos de aves à frente da rota.
Quando uma tripulação suspeita ou confirma uma colisão com ave, os procedimentos padrão incluem verificar os parâmetros do motor, avaliar vibração anormal e, dependendo da fase de voo, decidir entre continuar a subida, nivelar o voo para inspeção remota ou retornar ao aeroporto de origem. Após o pouso, mecânicos inspecionam motores, bordos de ataque das asas e superfícies de controle em busca de danos, e o evento é obrigatoriamente reportado às autoridades de aviação civil, alimentando as estatísticas que orientam novas políticas de prevenção.
É extremamente raro, mas não impossível — o caso do voo da US Airways que amerissou no Rio Hudson em 2009, após perder os dois motores por colisão com gansos, é o exemplo mais conhecido. Aviões comerciais são projetados e certificados para tolerar a maioria dos impactos com aves sem perda total de potência.
Porque é nessa fase que o avião voa mais baixo e mais lento, cruzando as altitudes onde a maioria das aves se desloca. Cerca de 90% dos bird strikes registrados pela FAA ocorrem a menos de 500 pés de altitude, durante a decolagem ou a aproximação final.
A responsabilidade é do operador do aeródromo, que precisa manter um Plano de Gerenciamento de Risco da Fauna conforme o RBAC nº 153 da ANAC. O descumprimento pode resultar em multas e até restrições operacionais para o terminal.
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