A cada cinco horas, em média, um avião comercial no Brasil colide com uma ave. O dado é da Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas) com base em registros da ANAC, e ajuda a explicar por que aeroportos investem tanto em manejo de fauna: colisões com aves, os chamados bird strikes, são um dos riscos operacionais mais recorrentes — e mais subestimados — da aviação.
Imagem: Ação de manejo integrado de fauna silvestre em base aérea nos Estados Unidos, parte dos esforços contínuos para reduzir o risco de colisão entre aves e aeronaves. Foto de USDAgov, via Wikimedia Commons (Domínio Público).
Segundo reportagem da PANROTAS baseada em dados da Abear, o Brasil registrou mais de 5.100 colisões entre aves e aeronaves entre 2022 e 2024. No primeiro semestre de 2025, houve um salto de 32% nos registros em relação ao mesmo período do ano anterior — mais de 1.100 ocorrências, contra 869 em 2024. Estima-se que cerca de 27 mil passageiros sejam afetados anualmente por causa de cancelamentos de voos ligados a esses incidentes, algo em torno de 100 voos cancelados por ano.
De acordo com a ANACpédia, o Regulamento Brasileiro da Aviação Civil (RBAC) nº 153 estabelece os procedimentos básicos de gerenciamento de risco da fauna que os operadores aeroportuários devem seguir — desde o controle da vegetação ao redor das pistas até o afastamento ativo de aves da área operacional. Quando ocorre um incidente que gera atraso ou cancelamento, a Resolução ANAC nº 400 entra em cena para garantir assistência aos passageiros, como alimentação e hospedagem.
Nos Estados Unidos, o Departamento de Agricultura (USDA), em parceria com a FAA, mantém o National Wildlife Strike Database desde 1990. Segundo dados da própria FAA, foram registrados cerca de 292 mil choques com fauna silvestre envolvendo aeronaves civis entre 1990 e 2023, somando aproximadamente 19.700 apenas em 2023, distribuídos por 780 aeroportos americanos. Aves estão envolvidas em cerca de 95,8% desses registros — o restante se divide entre mamíferos terrestres, morcegos e répteis.
Os dados da FAA mostram um padrão temporal bem definido: cerca de 54% das colisões com aves acontecem entre julho e outubro, período em que filhotes recém-saídos do ninho começam a voar e coincide com a migração de outono no hemisfério norte. Em termos de horário, 62% das colisões ocorrem durante o dia, 8% no amanhecer ou entardecer e 30% à noite — o que reforça que a vigilância precisa ser constante, não só em horários de maior movimento visual de aves.
A maioria dos bird strikes causa dano mínimo ou nenhum dano visível, mas o risco real está na possibilidade de a ave ser ingerida por um motor a jato durante a decolagem, fase em que a aeronave está próxima do solo e com pouca margem de manobra. É justamente por isso que motores comerciais passam por testes rigorosos de ingestão de aves antes da certificação — e por que o controle de fauna ao redor das pistas é tratado como prioridade operacional, e não como um detalhe paisagístico.
Segundo levantamento divulgado em dezembro de 2025, o Brasil registrou mais de 5,1 mil colisões entre aves e aeronaves entre 2022 e 2024 — uma média de um evento a cada cinco horas de operação no país — com um crescimento de 32% nos registros do primeiro semestre de 2025 em comparação ao mesmo período de 2024. Cerca de 80% dessas colisões acontecem durante a decolagem ou o pouso, quando a aeronave está mais próxima do solo e voando mais devagar. O custo anual estimado com manutenção e indisponibilidade de aeronaves causado por essas colisões passa de R$ 200 milhões, o que tem levado aeroportos brasileiros a investir em programas de manejo de fauna, como afugentamento controlado de aves e monitoramento de áreas de nidificação próximas às pistas.
É raro, mas não impossível — o caso mais conhecido é o pouso forçado do voo US Airways 1549 no rio Hudson, em 2009, após a ingestão de aves em ambos os motores. Por isso os motores são certificados para suportar impactos de aves de diferentes tamanhos sem falha catastrófica, e os aeroportos investem em prevenção constante.
Porque reduzir a presença de aves e outros animais silvestres na área operacional é a forma mais eficaz de evitar colisões antes que elas aconteçam. Essas equipes usam desde manejo da vegetação e da água ao redor das pistas até métodos de dispersão ativa, conforme exigido pelo RBAC 153 da ANAC.
Pode refletir tanto maior presença de fauna quanto melhoria nos processos de notificação e registro das ocorrências. De qualquer forma, o aumento reforça a importância de manter — e reforçar — os programas de gerenciamento de risco de fauna nos aeroportos brasileiros.
Não totalmente — é impossível eliminar por completo a presença de aves ao redor de um aeroporto, mas medidas como manejo de vegetação, controle de fontes de alimento e água próximas às pistas, e uso de sistemas de afugentamento sonoro e visual reduzem significativamente a frequência e a gravidade das colisões.
Para entender melhor como a aviação lida com falhas inesperadas em pleno voo, veja também como um avião consegue voar com apenas um motor graças às regras ETOPS e como a caixa preta ajuda a investigar incidentes como esse.
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