Quando um avião perde potência sobre o oceano ou um grande rio, a última cartada do piloto pode ser pousar diretamente na água. Esse procedimento, chamado de amerissagem (ditching, em inglês), é um dos cenários mais raros e mais treinados da aviação comercial — e o caso mais famoso da história, o "Milagre no Hudson", mostrou que, quando bem executado, ele pode salvar todos a bordo.
Imagem: Avião da US Airways flutuando no Rio Hudson logo após a amerissagem de emergência do voo 1549, em janeiro de 2009. Foto de Greg L, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).
Amerissagem é o pouso controlado de uma aeronave na superfície da água, geralmente motivado por perda total de potência dos motores, incêndio a bordo ou outra emergência que torne impossível alcançar uma pista. É diferente de uma queda: trata-se de um pouso planejado, com o piloto controlando ângulo, velocidade e atitude da aeronave até o contato com a água, da mesma forma que faria em uma pista de terra ou concreto.
Nos Estados Unidos, a certificação de aeronaves para amerissagem segue a norma 14 CFR 25.801 da FAA (equivalente à CS-25.801 na Europa). A regra exige que os fabricantes tomem "toda medida de projeto praticável" para minimizar o risco de ferimentos imediatos aos ocupantes ou de impedir sua fuga em caso de pouso forçado na água. O comportamento hidrodinâmico da aeronave — como flaps, escotilhas e outras saliências afetam a flutuação — precisa ser validado por testes com modelos ou comparação com aeronaves de configuração semelhante, e o fabricante deve demonstrar que o tempo de flutuação e a estabilidade da aeronave são suficientes para que os ocupantes cheguem aos botes salva-vidas exigidos pela seção 25.1415.
Em 15 de janeiro de 2009, o voo 1549 da US Airways, um Airbus A320, decolou do aeroporto LaGuardia, em Nova York, e cerca de dois minutos depois atravessou um bando de gansos-canadenses. Os dois motores perderam praticamente toda a potência. Os comandantes Chesley "Sully" Sullenberger e Jeffrey Skiles decidiram amerissar no Rio Hudson em vez de tentar retornar a um aeroporto. A manobra foi bem-sucedida: dos 155 passageiros e tripulantes a bordo, todos sobreviveram, com apenas cinco feridos graves. Balsas da empresa NY Waterway resgataram 143 pessoas da água e das asas do avião, no que ficou registrado como um dos resgates marítimos mais bem-sucedidos da história da aviação, complementado pela Guarda Costeira e pelo Corpo de Bombeiros de Nova York.
Aeronaves certificadas para rotas sobre grandes extensões de água carregam coletes salva-vidas sob os assentos e, em muitos casos, botes infláveis integrados aos toboáguas de evacuação. Durante o processo de certificação, chamado de "ditching demonstration", os comissários de bordo precisam demonstrar na prática a retirada de cada bote de sua posição na aeronave e o conhecimento de todo o equipamento que o acompanha — rádio, sinalizadores, kit de sobrevivência. Esse treinamento é repetido periodicamente ao longo da carreira da tripulação, mesmo que a grande maioria nunca vivencie uma amerissagem real.
Diferentemente de um pouso em pista, a água pode se comportar de forma imprevisível: ondas, correntes e a própria velocidade da aeronave no momento do toque podem fazer a fuselagem quebrar ou virar. Por isso, pilotos são treinados para tocar a água o mais "esticado" possível, com o nariz ligeiramente para cima, buscando reduzir o impacto inicial — a mesma técnica usada por Sullenberger no Hudson. A amerissagem só é considerada quando não há pista alcançável; sempre que possível, o protocolo prioriza um pouso de emergência em solo firme.
Aeronaves certificadas para operações estendidas sobre água (como rotas transoceânicas) passam por testes específicos de flutuabilidade e comportamento na água, mas o resultado de uma amerissagem real depende de fatores como estado do mar, velocidade de toque e perícia da tripulação. Não existe garantia absoluta, mas o treinamento reduz significativamente o risco.
Na maioria dos casos que levam a uma amerissagem, os motores já perderam a potência antes do pouso — como ocorreu no voo 1549, após a colisão com aves. A aeronave passa a planar até o momento do toque na água, sem propulsão.
Antes da decolagem, a tripulação demonstra o uso de coletes salva-vidas e a localização das saídas de emergência em voos que sobrevoam grandes extensões de água. Não há treinamento prático para os passageiros, mas as instruções de segurança cobrem os procedimentos básicos a seguir em caso de pouso na água.
Para entender outros procedimentos de emergência da aviação comercial, veja também nossos posts sobre a regra dos 90 segundos de evacuação e sobre o CRM (Crew Resource Management).
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