PSO: Como o Governo Tenta Pagar Companhias Aéreas Para Voar a Rotas Que Não Dão Lucro no Brasil

Turboélice ATR 72-600 da Azul Linhas Aéreas em solo

Voar para muitas cidades do interior do Brasil, sobretudo na Amazônia, simplesmente não dá lucro: poucos passageiros, aeroportos pequenos e distâncias enormes tornam a conta inviável para qualquer companhia aérea sozinha. Para tentar destravar esse mercado, o governo brasileiro recorre periodicamente a um mecanismo chamado PSO, sigla para obrigação de serviço público (ou subsídio à aviação regional, dependendo da versão do programa): o Estado paga parte da conta para que companhias aéreas mantenham voos em rotas que, sem ajuda, desapareceriam do mapa. A ideia é simples no papel. Na prática, a história desse tipo de subsídio no Brasil é cheia de promessas que não saíram do papel.

Imagem: ATR 72-600 da Azul, a maior operadora de rotas regionais do Brasil. Foto de Mariordo (Mario Roberto Durán Ortiz), via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Como o Subsídio Foi Desenhado em 2015

A versão mais detalhada desse modelo chegou a ser regulamentada em 2015, como medida provisória: R$ 500 milhões em subsídios para companhias aéreas naquele ano, pagos de duas formas, isenção de taxas aeroportuárias e subsídio direto por passageiro transportado. O valor do subsídio equivalia ao custo operacional por passageiro, limitado a 50% dos assentos disponíveis e a no máximo 60 passageiros por voo. Jatos Embraer das famílias 170/175 e 190/195, com 90 a 134 assentos, foram identificados pelo Ministério da Fazenda como os que receberiam o maior subsídio por passageiro-quilômetro; turboélices em rotas de até 500 km receberiam cerca da metade desse valor. A Azul, maior operadora regional do país, era apontada como a principal beneficiária, com estimativa de receber até R$ 400 milhões só no primeiro ano, mantendo sua frota de ATR turboélices para atender novos destinos.

A Lei Que “Ficou Só no Papel”

Esse modelo de 2015 deu origem à Lei 13.097/2015, que criou um programa nacional de aviação regional com prioridade para a Amazônia Legal. Mais de uma década depois, porém, segundo o senador Dr. Hiran (PP-RR), autor de um projeto mais recente para revisar o modelo, esse programa original “ficou só no papel” — ou seja, nunca chegou a ser efetivamente implementado na escala planejada — e estava prestes a perder validade em janeiro de 2025, quando se esgotaria o prazo de dez anos previsto na própria lei.

O Projeto Que Tenta Reviver o Modelo em 2025

Para substituir o programa que não saiu do papel, tramita no Senado o Projeto de Lei 1.600/2025, que cria o Parno (Programa de Aviação Regional da Região Norte). Pelo desenho proposto, a União pagaria às companhias aéreas cadastradas no programa as taxas de navegação aérea em aeroportos regionais — definidos como aeroportos pequenos ou médios, com menos de 1 milhão de passageiros por ano — além de cobrir parte do custo de até 60 passageiros em rotas que começam ou terminam nesses aeroportos. Os pagamentos só começariam após pelo menos 30 dias de operação regular da rota, e a companhia precisaria se comprometer a manter o voo funcionando por ao menos 180 dias após cada repasse; quem descumprisse as regras teria que devolver o subsídio recebido, corrigido pela inflação. Os valores seriam calculados com base no aeroporto atendido, na distância voada e no consumo de combustível, entre outros critérios a serem regulamentados, e qualquer companhia que cumprisse os requisitos legais para uma rota teria direito a participar.

O financiamento ficaria limitado a até 20% dos recursos do Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC), e o programa, se aprovado, duraria cinco anos, prorrogáveis por igual período. A proposta cobre os sete estados da Região Norte — Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins —, uma região onde, segundo o autor do projeto, cidades fora de Manaus e Belém enfrentam voos caros e pouco frequentes, muitas vezes com horários de madrugada e conexões obrigatórias em São Paulo. Até a conclusão desta reportagem, o projeto seguia em análise na Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR) do Senado, aguardando parecer antes de avançar para a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).

Por Que Isso Importa Para Quem Mora Longe das Capitais

O impasse em torno do PSO ajuda a explicar por que, mesmo com o Brasil batendo recordes de passageiros transportados nos grandes aeroportos a cada ano, boa parte do interior — sobretudo na Amazônia — continua dependente de poucos voos, horários ruins e conexões longas. Sem um mecanismo de subsídio funcionando de fato, a decisão de abrir ou manter uma rota regional continua sendo, para a companhia aérea, puramente uma questão de planilha: se não fecha a conta, a rota não existe, por mais essencial que seja para quem vive naquela cidade.

A seguir, alguns aspectos técnicos e regulatórios que complementam a discussão acima.

Como as Alianças Aéreas Funcionam

Alianças como as que reúnem companhias aéreas de diferentes continentes permitem acordos de codeshare, em que um voo operado por uma companhia é vendido também com o código de outra, ampliando a rede de destinos oferecida a cada passageiro sem que a própria companhia precise operar aquela rota. Para o passageiro, isso normalmente significa acúmulo e uso de milhas entre companhias parceiras e conexões mais integradas entre voos de diferentes operadoras. Para as companhias, representa uma forma de competir em escala global sem o investimento necessário para operar diretamente em todos os mercados.

O Modelo de Negócio das Low-Cost

Companhias aéreas de baixo custo reduzem despesas ao padronizar a frota em um único modelo de aeronave, operar majoritariamente rotas diretas entre dois pontos em vez de conexões por hubs, e cobrar separadamente por serviços que companhias tradicionais costumam incluir no preço, como bagagem despachada e escolha de assento. Outro pilar do modelo é a alta utilização de cada aeronave, com tempos de solo mais curtos entre voos, o que permite mais decolagens por dia com a mesma frota. Essa combinação de fatores permite tarifas básicas mais baixas, ainda que o custo final possa se aproximar do de companhias tradicionais quando o passageiro adiciona vários serviços opcionais.

Quanto Custa Manter um Avião Comercial

Os custos de operar uma aeronave comercial vão muito além do combustível, embora ele costume ser o maior item variável: incluem arrendamento ou financiamento da aeronave, manutenção programada, seguros, taxas aeroportuárias e de navegação aérea, além da tripulação. Por isso, muitas companhias optam por arrendamento operacional em vez de comprar aeronaves diretamente, o que reduz a necessidade de capital imobilizado e facilita ajustes de frota conforme a demanda do mercado muda. Esse equilíbrio entre custos fixos e variáveis é um dos motivos pelos quais o setor aéreo é historicamente sensível a oscilações cambiais e no preço do petróleo.

Os Desafios Econômicos do Setor Aéreo no Brasil

O mercado aéreo brasileiro enfrenta particularidades que o diferenciam de outros países, como a tributação sobre combustível de aviação, que varia conforme o estado e impacta diretamente o custo operacional das companhias que mais voam em determinadas rotas. Além disso, grande parte dos custos do setor, incluindo arrendamento de aeronaves e peças de manutenção, é cotada em dólar, enquanto a receita das companhias é predominantemente em reais, criando exposição cambial relevante. Some-se a isso a necessidade constante de investimento em infraestrutura aeroportuária para acompanhar o crescimento da demanda, e fica mais claro por que o setor aéreo brasileiro opera historicamente com margens mais estreitas do que em mercados mais maduros.

O Impacto do Preço do Combustível nas Tarifas Aéreas

O combustível de aviação costuma representar uma das maiores parcelas do custo operacional de uma companhia aérea, e por isso oscilações no preço do petróleo se refletem relativamente rápido nas tarifas cobradas dos passageiros. Para reduzir essa exposição, muitas companhias utilizam instrumentos financeiros de proteção, conhecidos como hedge de combustível, que fixam parte do custo futuro a um preço previamente acordado. Mesmo com essas proteções, períodos de alta prolongada no preço do petróleo historicamente forçam reajustes tarifários ou mudanças na malha de rotas operadas.

A Carreira de Piloto: Da Escola de Aviação à Cabine

O caminho até o cockpit de uma aeronave comercial passa por etapas regulamentadas: a licença de piloto privado (PPL), depois a licença de piloto comercial (CPL) e, para operar aeronaves maiores, a licença de piloto de linha aérea (ATPL), cada uma exigindo horas mínimas de voo e exames teóricos específicos. Após a formação inicial, é comum que pilotos precisem acumular horas de experiência antes de serem contratados por companhias maiores, e cada nova aeronave que o piloto passa a operar exige um treinamento de habilitação de tipo específico para aquele modelo. Essa trajetória, que pode levar vários anos, explica por que a formação de novos comandantes é vista pelas companhias como um investimento de longo prazo.

Perguntas Frequentes Adicionais

Como funciona o programa de milhas?
Companhias aéreas vendem milhas para parceiros, como bancos e varejistas, e usam o acúmulo e a resgate de milhas pelos passageiros como ferramenta de fidelização, funcionando como uma fonte relevante de receita adicional além da venda direta de passagens.

Por que passagens de última hora são mais caras?
Os sistemas de gerenciamento de receita assumem que quem compra muito perto da data de embarque tem urgência, geralmente ligada a viagens de negócios, e por isso os assentos remanescentes nessas classes tarifárias custam mais caro conforme a data do voo se aproxima.

Perguntas Frequentes

O PSO já existe e está em vigor no Brasil hoje?

Existe uma lei de 2015 (Lei 13.097/2015) que criou um programa desse tipo, mas, segundo o autor de um projeto mais recente, ela nunca foi implementada na escala planejada. Um novo projeto (PL 1.600/2025), batizado de Parno e focado na Região Norte, estava em tramitação no Senado até a conclusão desta reportagem.

Quem pagaria a conta do subsídio?

A União, por meio de recursos do Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC), com o novo projeto prevendo um limite de até 20% dos recursos do fundo destinado a esse fim.

Qual companhia aérea mais se beneficiaria desse tipo de subsídio?

Historicamente, a Azul, por ser a maior operadora de rotas regionais do país e manter uma frota dedicada de turboélices ATR para atender cidades menores.

Fontes

Para entender outras frentes de incentivo à aviação regional no Brasil, veja também a proposta do governo de reduzir impostos para companhias que priorizem rotas regionais, e conheça o aeroporto brasileiro que bate recorde de pousos todo dia (e não é Guarulhos).

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