Todo avião comercial que decola hoje ainda depende, majoritariamente, de querosene de aviação derivado de petróleo. Mas uma fração crescente dessa mistura já vem de outra fonte: óleo de cozinha usado, gordura animal, resíduos agrícolas ou etanol de cana. É o chamado SAF — Sustainable Aviation Fuel, ou Combustível Sustentável de Aviação — e ele é hoje a principal aposta do setor para reduzir emissões sem esperar por aviões elétricos ou a hidrogênio, que ainda estão a décadas de distância da aviação comercial de longo curso.
Imagem: motor turbofan IAE V2500 em um Airbus A320 — o mesmo tipo de motor a jato convencional que já opera normalmente com misturas de SAF, sem qualquer modificação mecânica. Foto de Olivier Cleynen, via Wikimedia Commons (CC BY 4.0).
O que exatamente é o SAF
SAF não é um único produto, mas uma família de combustíveis produzidos a partir de matérias-primas renováveis — óleos vegetais e de cozinha reciclados, gorduras animais, resíduos florestais e agrícolas, e também rotas sintéticas que combinam hidrogênio verde com CO2 capturado do ar. Quimicamente, o SAF é muito parecido com o querosene fóssil (Jet A-1), o que permite misturá-lo diretamente ao combustível convencional e usá-lo nos motores e na infraestrutura de abastecimento já existentes, sem qualquer adaptação na aeronave. Atualmente as normas técnicas permitem misturas de até 50% de SAF com querosene fóssil, dependendo da rota de produção certificada.
Quanto ele realmente reduz as emissões
Segundo dados consolidados por pesquisadores e agências do setor, o SAF pode cortar entre 65% e 80% das emissões de gases de efeito estufa em todo o ciclo de vida do combustível, comparado ao querosene fóssil — a variação depende da matéria-prima e do processo produtivo usados. A redução não é de 100% porque ainda há emissões associadas ao cultivo, coleta, transporte e processamento das matérias-primas. Mesmo assim, é hoje a alavanca mais realista para descarbonizar voos de longa distância, já que baterias elétricas seguem inviáveis em peso para aeronaves de grande porte e o hidrogênio ainda enfrenta barreiras de armazenamento e infraestrutura.
Por que o SAF ainda custa tanto mais caro
Em 2026, a produção mundial de SAF gira em torno de 2,4 milhões de toneladas, o equivalente a apenas cerca de 0,8% de todo o combustível de aviação consumido no planeta. Essa escala pequena é justamente o motivo do preço elevado: faltam refinarias dedicadas, a cadeia de coleta de matéria-prima (como óleo de cozinha usado) ainda é fragmentada, e o SAF compete por insumos com o mercado de biodiesel rodoviário. Como resultado, o litro de SAF pode custar de duas a quatro vezes mais que o querosene fóssil equivalente, um custo que acaba repassado, ainda que parcialmente, ao preço das passagens em rotas onde companhias já usam blends maiores.
O Brasil e o programa ProBioQAV
O Brasil criou o ProBioQAV, seu programa nacional de combustível sustentável de aviação, dentro da Lei do Combustível do Futuro. Diferentemente de países que exigem uma mistura mínima obrigatória em volume, o modelo brasileiro estabelece metas de redução de emissões: os voos domésticos precisam cortar 1% das emissões a partir de 2027, com esse percentual subindo progressivamente até 10% em 2037. A ideia é dar flexibilidade às companhias para escolher a combinação de SAF, eficiência operacional e frota mais moderna que funcione economicamente, em vez de forçar uma cota fixa de mistura logo de saída — um desenho pensado para um país que já tem matéria-prima abundante (cana, óleos vegetais, resíduos agrícolas) mas ainda não tem escala industrial de produção.
O que falta para o SAF deixar de ser exceção
Especialistas do setor apontam três gargalos principais: capital para novas refinarias (que custam centenas de milhões de dólares e levam anos para ficar prontas), garantia de fornecimento estável de matéria-prima em grande volume, e políticas de incentivo fiscal que reduzam a diferença de preço frente ao querosene fóssil. Enquanto isso não acontece em escala, o SAF deve continuar restrito a parcerias pontuais entre companhias aéreas, aeroportos e produtores — casos como voos específicos abastecidos parcialmente com SAF em aeroportos europeus e americanos — em vez de virar padrão em toda a malha aérea mundial.
A seguir, alguns aspectos técnicos e regulatórios que complementam a discussão acima.
Como os Motores a Jato Geram Empuxo
Nos motores turbofan usados pela maioria dos aviões comerciais atuais, uma grande hélice encapsulada (o fan) acelera uma enorme quantidade de ar, a maior parte do qual passa ao redor do núcleo do motor sem ser queimada, enquanto uma fração menor entra na câmara de combustão, se mistura a combustível e é queimada para acionar as turbinas que impulsionam o próprio fan. Esse desenho, conhecido como alta taxa de bypass, é o principal responsável pela eficiência de combustível e pela redução de ruído dos motores modernos em comparação com gerações anteriores de motores a jato.
Como os Aeroportos Organizam o Tráfego em Pistas Movimentadas
Aeroportos com alto volume de operações utilizam sistemas de slots, horários reservados de decolagem e pouso, combinados com sequenciamento cuidadoso feito pelo controle de solo e pela torre para evitar conflitos. A separação entre decolagens e pousos sucessivos também leva em conta a turbulência de esteira gerada por aeronaves maiores, que pode afetar aeronaves menores que voem muito próximas atrás delas, exigindo intervalos de tempo maiores entre certas combinações de aeronaves. Esse equilíbrio entre capacidade da pista e segurança é um dos fatores que limita quantos voos um aeroporto pode operar por hora, independentemente da demanda dos passageiros.
A Diferença Entre Piloto Automático e Pilotagem Manual
O piloto automático é responsável por manter parâmetros de voo como altitude, velocidade e rota durante as fases mais estáveis do voo, liberando a tripulação para monitorar sistemas, se comunicar com o controle de tráfego e antecipar decisões. Mesmo assim, os pilotos permanecem como responsáveis legais e operacionais por todas as decisões, e as fases mais críticas, como decolagem e grande parte das aproximações, normalmente são conduzidas com envolvimento manual direto ou supervisão ativa muito próxima. Contrário ao que muitos imaginam, o piloto automático não substitui a tripulação: ele é uma ferramenta que reduz carga de trabalho em tarefas repetitivas, permitindo foco total nas decisões que realmente exigem julgamento humano.
Como o Plano de Voo é Elaborado Antes da Decolagem
Antes de qualquer decolagem, um despachante operacional calcula a rota, o combustível necessário considerando reservas obrigatórias, aeroportos de alternativa em caso de desvio, e verifica NOTAMs, avisos oficiais sobre condições temporárias que podem afetar aeroportos ou rotas, como pistas fechadas ou equipamentos fora de operação. Esse plano é revisado e assinado pelo comandante antes do voo, que pode solicitar ajustes se considerar necessário. Esse processo, invisível para os passageiros, é uma das razões pelas quais um voo raramente decola sem uma quantidade de combustível cuidadosamente calculada para cada cenário possível.
Por Que os Aviões Voam em Grandes Altitudes
Em altitudes de cruzeiro, geralmente entre 9 e 12 mil metros, o ar é muito mais rarefeito, o que reduz o arrasto aerodinâmico e permite que o avião percorra a mesma distância consumindo significativamente menos combustível do que voaria próximo ao solo. Essa altitude também posiciona a aeronave acima da maior parte das nuvens de tempestade e da turbulência associada a fenômenos meteorológicos de baixa altitude, resultando em voos mais suaves na maior parte do trajeto. A escolha exata do nível de cruzeiro considera ainda o peso da aeronave, os ventos previstos e o tráfego de outras aeronaves na mesma rota.
O Que Acontece na Torre de Controle
O controle de tráfego aéreo de um aeroporto é dividido em camadas: a liberação de plano de voo antes da saída, o controle de solo que guia a aeronave até a pista, a torre propriamente dita que autoriza decolagens e pousos, e o controle de aproximação e saída que gerencia o tráfego nos primeiros e últimos quilômetros de altitude. Cada uma dessas funções pode ser exercida por controladores diferentes, especialmente em aeroportos de grande movimento, e a transferência de responsabilidade entre eles é feita por meio de comunicação padronizada e protocolos específicos que minimizam a chance de mal-entendidos.
Perguntas Frequentes Adicionais
Como funciona o pouso automático (autoland)?
Em condições de visibilidade muito reduzida, aeroportos e aeronaves certificados para operações de Categoria III permitem que o sistema de piloto automático execute a aproximação e o pouso com supervisão ativa da tripulação, usando sinais precisos do sistema de aproximação por instrumentos.
Por que os aviões não voam em linha reta no mapa?
Em um mapa plano, a rota mais curta entre dois pontos distantes aparece curva porque representa, na verdade, um arco de círculo máximo sobre a superfície esférica da Terra. Os planejadores de rota também ajustam o trajeto para aproveitar correntes de jato favoráveis, o que pode economizar tempo e combustível.
Perguntas frequentes
O avião precisa de alguma modificação para usar SAF?
Não. O SAF é certificado como “drop-in fuel”, ou seja, pode ser misturado ao querosene fóssil convencional e abastecido nos aviões e na infraestrutura de aeroportos já existentes, sem qualquer alteração no motor ou no sistema de combustível da aeronave.
SAF é a mesma coisa que biodiesel usado em carros e caminhões?
Não exatamente. Embora possam compartilhar matérias-primas (como óleo de cozinha usado), o SAF passa por processos de refino diferentes e mais rigorosos, porque precisa atender especificações técnicas de combustível de aviação, que são muito mais exigentes que as do diesel rodoviário em termos de estabilidade em baixas temperaturas e desempenho em altitude.
Por que o Brasil não exige uma porcentagem fixa de SAF como outros países?
O ProBioQAV optou por metas de redução de emissões em vez de uma cota volumétrica fixa porque isso dá às companhias aéreas flexibilidade para atingir o resultado ambiental combinando SAF com outras medidas, como aviões mais eficientes e otimização de rotas, considerando que o Brasil ainda está construindo sua capacidade industrial de produção do combustível.
Fontes
- Agência Brasil — Regras sobre combustível sustentável de aviação devem sair em breve
- Jornal UFG — ProBioQAV: Premissas para um Futuro de SAF no Brasil
Para entender outras apostas de descarbonização da aviação, veja também nosso texto sobre a aviação a hidrogênio e o projeto ZEROe da Airbus, e como pequenos ganhos de eficiência já ajudam a reduzir consumo em winglets: como as pontas de asa dobradas economizam combustível.



