No último sábado, 5 de setembro de 2026, um avião que poucos aeroportos do mundo ainda veem pousar decolou de Cochabamba, na Bolívia, com destino a Guarulhos, em São Paulo. A cena marcou o retorno de um trijato comercial ao espaço aéreo brasileiro — algo cada vez mais raro — e, principalmente, a volta às operações internacionais de um dos dois únicos McDonnell Douglas MD-10 ainda em atividade no planeta inteiro.
Imagem: McDonnell Douglas MD-10 em voo, o mesmo tipo do avião raro que voltou a operar internacionalmente em 2026. Foto de Eddie Maloney, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).
Um DC-10 com cérebro de MD-11
O MD-10 não é um projeto totalmente novo, mas uma modernização do clássico Douglas DC-10: a aeronave recebeu a cabine de comando do seu sucessor, o MD-11, eliminando a necessidade de um terceiro tripulante, o engenheiro de voo, graças a um nível de automação maior. Essa conversão permitiu que operadores de carga aproveitassem cascos de DC-10 já existentes com um custo operacional mais próximo ao de aviões mais modernos, exigindo uma tripulação de apenas dois pilotos, como em um MD-11.
Por que restam só dois no mundo inteiro
Antes de setembro de 2026, apenas dois exemplares de MD-10 seguiam em operação regular no mundo: um pertencente à Orbis, organização que o transformou em um hospital oftalmológico voador, e outro operado pela boliviana TAB Cargo. Ambos compartilham a mesma base estrutural e de certificação da família de trijatos DC-10/MD-11 — o que se tornaria um problema depois de um acidente do lado oposto do Atlântico.
A queda que parou toda a família de trijatos
Em novembro de 2025, a queda de um MD-11 de carga da UPS levou à paralisação de toda a família de trijatos DC-10/MD-11/MD-10 ao redor do mundo, incluindo os dois MD-10 ainda ativos. O exemplar da Orbis retornou aos céus meses depois, mas o avião da TAB Cargo ficou em solo por muito mais tempo: desde 13 de novembro de 2025.
Nove meses parado até o retorno gradual aos céus
O MD-10 da TAB Cargo só voltou a voar em 27 de agosto de 2026, inicialmente em voos domésticos entre Santa Cruz de la Sierra e Cochabamba, na Bolívia — possivelmente voos de teste pós-manutenção. Foi apenas em 5 de setembro, quase dez meses após a paralisação, que a aeronave realizou seu primeiro voo internacional desde o acidente da UPS, pousando em Guarulhos. Informações preliminares indicam que o avião levava um motor destinado a um Boeing 737 da companhia coirmã Boliviana de Aviación, que havia retornado em emergência a Guarulhos pouco depois de decolar dias antes.
Por que ver um trijato comercial hoje é cada vez mais raro
Aviões com três motores, como o DC-10, o L-1011 e o MD-11, dominaram rotas de longa distância nas décadas de 1970 a 1990, mas foram progressivamente aposentados à medida que bimotores mais eficientes, com certificação para voos estendidos sobre o oceano, tomaram seu lugar na aviação de passageiros. Hoje, exemplares como o MD-10 sobrevivem quase exclusivamente em nichos específicos de carga ou operações humanitárias, tornando cada pouso de um trijato clássico em um grande aeroporto internacional um evento notado por entusiastas de aviação ao redor do mundo.
Perguntas frequentes
O que diferencia um MD-10 de um DC-10 comum?
O MD-10 recebeu a cabine de comando modernizada e mais automatizada do MD-11, permitindo operação com apenas dois pilotos, sem a necessidade do engenheiro de voo exigido nos DC-10 originais.
Por que o acidente de um MD-11 afetou também os MD-10?
Porque o MD-10, o MD-11 e o DC-10 pertencem à mesma família estrutural e de certificação de tipo, então investigações de segurança após um acidente grave costumam levar à paralisação cautelar de toda a família de aeronaves até que a causa seja esclarecida.
Ainda existem passageiros voando em MD-10 hoje?
Não em voos comerciais regulares de passageiros; os dois exemplares restantes em operação são usados para carga (TAB Cargo) e para uma missão humanitária de saúde ocular a bordo (Orbis), não para transporte comercial de passageiros.
Fontes
- AEROIN — Raro avião MD-10 que estava sem voar há 9 meses fez seu primeiro voo internacional para São Paulo
- AEROIN — Investigadores divulgam vídeo do momento do acidente do MD-11 da UPS
Casos como esse mostram como famílias inteiras de aeronaves seguem interligadas décadas depois de lançadas. Veja também como a Embraer comemorou outro marco recente da aviação comercial ao entregar o 2.000º E-Jet de sua família de jatos, e entenda como funcionam os acordos de codeshare entre companhias aéreas coirmãs.



